quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O perigo de opinar sobre o que você não conhece na pandemia

Um dos maiores problemas que ficou evidente durante a pandemia do coronavírus foi a disseminação de notícias e informações falsas. As fake news passaram a fazer parte da nossa rotina e trouxeram prejuízos para a imagem de figuras públicas e também distorceram a realidade de acordo com o interesse de quem comunica. Na Covid-19, elas foram disseminadas tão rapidamente quanto a própria a doença.

Não à toa, várias iniciativas foram criadas com o objetivo de combater a desinformação neste momento, entre elas uma série lançada pela Unesco com áudios em diversas línguas com dicas de saúde e práticas que evitam a propagação de fake news.

Contudo, outro fenômeno sociológico ainda pouco conhecido tem se mostrado tão nocivo quanto as notícias falsas. É a invasão epistêmica ou invasão epistemológica. O termo, criado pelo filósofo americano Nathan Ballantyne, se refere a uma situação em que uma pessoa com especialização e conhecimento em determinada área decide opinar sobre um tema que não domina. Esse fenômeno se tornou mais comum do que nunca enquanto a pandemia se desenrolava.

Muitas vezes, o efeito ocorre mesmo sem má intenção de quem propaga a informação. Isso porque em uma situação de instabilidade todos se unem para procurar soluções. E, com a crise de saúde pública que vivemos hoje, o que não faltou foram pessoas e até médicos receitando medicamentos e tratamentos milagrosos sem embasamento ou comprovação científica.

Um levantamento realizado pelas iniciativas Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificad apontou 125 conteúdos envolvendo profissionais da área médica cuja desinformação a respeito da doença foi propagada em mais de 40 países, incluindo o Brasil. Um dos casos mais conhecidos e que ainda está sendo debatido é a utilização de hidroxicloroquina para o tratamento preventivo da Covid-19 — algo já contraindicado por pesquisas e especialistas.

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A invasão epistêmica tem ocorrido dentro de grupos da indústria da saúde e até mesmo entre políticos com propósitos questionáveis, o que fez com que o Conselho Federal de Medicina (CFM) tivesse de intervir e advertir com a emissão de uma nota de responsabilidade profissionais que divulguem tratamentos sem comprovação a pacientes com coronavírus.

Nesse contexto, o professor Ballantyne pontua: “A invasão epistêmica é onipresente nessa era de pesquisa interdisciplinar e reconhecer isso exigirá que sejamos mais modestos intelectualmente.”

É um desafio e tanto em um período em que as redes sociais colaboram para que a “invasão do saber” aconteça sem que haja responsabilização por parte de quem divulga ou compartilha conteúdos duvidosos. E o maior problema nesse caso é ter médicos que contribuem com a disseminação de informações infundadas. Estes profissionais tão essenciais devem respeitar os limites de seu conhecimento técnico e ter responsabilidade com o que falam, para quem falam e onde falam.

A invasão epistêmica está alcançando patamares perigosos especialmente na área da saúde e se coloca como desafio e lição para o futuro. Afinal, qual o propósito em opinar publicamente sobre um assunto que você não domina? Tenhamos consciência e modéstia para realmente ajudarmos uns aos outros baseados em nossos saberes e especialidades.

* Euclides Matheucci Jr. é professor do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), cofundador e presidente da DNA Consult e criador do teste #SalvaVidasCovid, que ajuda empresas a retomarem suas atividades com a testagem dos colaboradores

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Ibuprofeno: o que é para que serve e quais as indicações de uso

O que é o ibuprofeno

O ibuprofeno é um anti-inflamatório não esteroidal (AINE). Trata-se de um princípio ativo que age contra inflamações não tão intensas, sendo comumente indicado contra febre e dores diversas. Ele está disponível em remédios com diferentes nomes, de marcas distintas.

“Os AINEs são menos potentes que os esteroidais, como os corticóides, em bloquear o processo inflamatório. Esses são capazes até de alterar os glóbulos brancos”, diferencia o farmacêutico Leonardo Pereira, da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF).

Para que serve o ibuprofeno e quando deve ser usado

O ibuprofeno faz parte dos medicamentos isentos de prescrição, os MIPs. Portanto, você pode comprá-lo na farmácia sem uma receita.

“Na maioria das vezes, são remédios utilizados para tratar o que chamamos de transtornos menores ou problemas de saúde autolimitados”, informa Pereira, que também é professor da Universidade de São Paulo (USP).

Nessa lista, estão inclusos febre, dores musculares, cólicas menstruais e dor de garganta, cabeça e dente.

Só que o ibuprofeno tem uma capacidade anti-inflamatória um pouco mais intensa que outros AINEs. Por isso, às vezes os médicos o indicam para aliviar a dor de cirurgias pequenas, como a extração de um dente, e o incluem no tratamento de artrite.

Alguns remédios que têm ibuprofeno na composição

  • Advil
  • Alivium
  • Ibuflex
  • Buscofem
  • Novalfem
  • Doraplax
  • Lombalgina

Diferença de ibuprofeno e paracetamol

Apesar de ambos terem ação analgésica e agirem contra a febre, o ibuprofeno e o paracetamol são princípios ativos diferentes.

O paracetamol sequer é um anti-inflamatório propriamente. Por isso, não é tão útil quando a raiz da dor é uma inflamação. Além disso, ele demora mais para fazer efeito. Como escolher entre um e outro? Converse com um profissional de saúde.

Quanto tempo leva para fazer efeito

Ele precisa de 15 a 30 minutos para agir. O alívio dos sintomas dura entre quatro e seis horas, a depender da causa e da intensidade.

Tipos de ibuprofeno e diferença entre eles

Ele é encontrado em gotas, cápsulas e comprimidos. O princípio ativo, claro, segue o mesmo. A única diferença é que a forma líquida começa a surtir efeito mais rapidamente.

“Para um medicamento agir, ele precisa ser absorvido pelo trato gastrointestinal e cair na corrente sanguínea. Por isso a forma líquida é mais rápida que a sólida”, explica o farmacêutico. Ora, as cápsulas e os comprimidos demoram mais para serem digeridos e absorvidos pelo organismo.

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Quais são as contraindicações

Entre outros grupos, o ibuprofeno não deve ser utilizado por bebês menores de 6 meses, grávidas, lactantes e pessoas que sofrem com úlcera gastroduodenal e sangramento gastrointestinal. Idosos e crianças com menos de 2 anos só podem ingerir sob orientação médica. Pessoas com asma também não devem recorrer a esse fármaco para evitar broncoespasmos.

Além disso, ele não é recomendado em caso de suspeita de dengue e outras doenças causadas pelo mosquito Aedes aegypti. “Os AINEs interferem na formação das plaquetas, que é justamente onde essas enfermidades agem”, avisa o especialista. Ingerir essa classe de medicações quando você está com dengue aumenta o risco de hemorragias perigosas.

Claro, não tome se você for alérgico a qualquer componente da fórmula. Se tiver dúvidas, fale com um especialista. E sempre leia a bula.

É possível que o ibuprofeno provoque reações adversas. As mais comuns são tontura, coceira, enjoo, diarreia ou constipação, entre outras. Se notar qualquer sintoma suspeito, suspenda a medicação e fale com um médico.

Interações medicamentosas com o ibuprofeno

Há uma lista de remédios que devem ser evitados enquanto o ibuprofeno é administrado. Por isso, é importante ler a bula e informar o médico se você toma alguma outra droga, principalmente de uso contínuo.

Caso compre sem receita, vale a pena bater um papo com o farmacêutico antes.

Dose recomendada

Ela varia de acordo com a faixa etária e o peso. Essa informação também é encontrada na bula — e pode ser discutida com um especialista.

Abusos podem trazer consequências sérias. Se você ultrapassar a dosagem máxima diária, procure o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciat) mais próximo.

Precauções e advertências

Interrompa o consumo de bebidas alcoólicas enquanto estiver usando o remédio e fique atento a eventuais sinais de alergia. Se eles aparecerem, busque ajuda médica.

No mais, é importante ter bom senso. “Lembre-se que o ibuprofeno é indicado para transtornos menores. Se você continuar com febre ou dor por mais de dois ou três dias, então tem algo errado. Aí é necessário ir ao médico”, finaliza o professor.

Tomar remédio frequentemente, sem descobrir a causa por trás do incômodo, pode favorecer a evolução de doenças graves.

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Por mais acesso ao tratamento do diabetes com a cirurgia metabólica

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, existem atualmente mais de 13 milhões de pessoas vivendo no país com a doença, um número que tende a aumentar. No Brasil, as doenças crônicas não transmissíveis, caso da obesidade e do próprio diabetes, são responsáveis por mais de 70% das mortes, principalmente por causas cardiovasculares, como infartos e derrames. Inquestionavelmente, as pandemias deste século são a obesidade e o diabetes.

O controle do diabetes em nosso país é preocupante. Estima-se que 75% dos pacientes não conseguem obter o controle adequado da glicemia. Isso mesmo com o aparecimento de novos remédios. O diabetes, assim como a obesidade, é uma doença crônica e progressiva e, em um bom número de pacientes, os medicamentos têm seus limites de eficácia. Outro dado importante é que, em doenças marcadas pela utilização de drogas orais ou injetáveis de uso contínuo, eventualmente várias vezes ao dia, a adesão ao tratamento vai progressivamente diminuindo.

Recentemente, a pandemia de Covid-19 chamou ainda mais nossa atenção para os casos de obesidade e diabetes, pois foram aqueles com o maior risco de evoluir para as formas graves da infecção e morte pelo coronavírus. Em suma, ficou mais evidente do que nunca que precisamos tratar essas doenças com rigor.

Diversas pesquisas demonstraram que cirurgias no aparelho digestivo têm efeitos importantes sobre o controle do diabetes. Essas operações são chamadas de cirurgias metabólicas. Além do impacto na glicemia, estudos apontam que o procedimento melhora o controle da doença renal decorrente do diabetes e reduz a mortalidade por problemas do coração. Tudo isso com menos medicações e muita segurança.

A cirurgia metabólica já é coberta por planos de saúde para algumas indicações, de forma que já existe uma estrutura de atendimento que beneficiaria esses pacientes com obesidade e diabetes tipo 2. Por essas razões, foi recomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 2017.

Cerca de 47 milhões de brasileiros são beneficiários de planos de assistência médica em todo o país. E a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) define uma lista mínima de procedimentos que os convênios devem obrigatoriamente oferecer aos consumidores. É nesse contexto que se propôs a incorporação da cirurgia metabólica para pacientes com obesidade leve e diabetes não controlado.

O parecer preliminar da ANS foi negativo, mas existe a chance de reverter a recomendação e sensibilizar o órgão sobre o papel e a relevância do procedimento. Uma das etapas mais significativas para essa tomada de decisão se dá por meio da opinião da população, o que é feito através de uma consulta pública em andamento.

Garantir acesso ao melhor tratamento é fundamental para todo cidadão. A cirurgia metabólica é a última alternativa para pacientes com diabetes tipo 2 fora de controle antes de desfechos como amputações, cegueira, diálise, infarto, derrame e mesmo morte.

* Ricardo Cohen é cirurgião e coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Vai mudar tudo nos rótulos dos alimentos

Depois de aproximadamente seis anos de análises e discussões, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) definiu como será o novo padrão de rotulagem de bebidas e alimentos industrializados no Brasil.

A mudança mais importante diz respeito a um símbolo de lupa que aparecerá na parte da frente da embalagem caso o produto em questão apresente quantidades elevadas de um dos seguintes ingredientes: açúcar, sódio ou gordura saturada.

Veja exemplos de modelos:

 

<span class="hidden">–</span>Divulgação Anvisa/SAÚDE é Vital

“A lupa foi o símbolo que se mostrou o melhor veículo para cumprir o objetivo principal da norma, que é comunicar ao consumidor o que ele está adquirindo”, comenta Alessandra Bastos, diretora relatora da Anvisa.

Sobre a escolha da trinca de ingredientes, ela diz: “Com base em todos os dados que avaliamos, eles são os que sabidamente apresentam maior risco à saúde pública, caso ingeridos de maneira inadequada”, explica.

Alessandra espera que, com a nova norma, as empresas do setor se esforcem para utilizar ingredientes cada vez melhores em seus produtos e em doses adequadas – beneficiando, em última instância, o consumidor.

Embora reconheça o avanço em relação ao sistema de rotulagem atual, o Instituto de Defesa do Consumidor, o Idec levanta algumas críticas. “Esse modelo de lupa não está baseado em evidências científicas. Ou seja, não há comprovação de que realmente atinja seus objetivos regulatórios, como dar mais informações para o consumidor fazer melhores escolhas”, aponta Teresa Liporace, diretora-executiva do Idec.

A instituição, vale lembrar, defendia o uso de um modelo de advertência em formato de triângulo preto – ideia similar à adotada pelo Chile e cuja eficácia já foi atestada em pesquisas.

Outro ponto que desagrada o Idec diz respeito aos limites estabelecidos pela Anvisa para considerar se determinado produto deve levar o símbolo frontal de excesso de sódio, açúcar ou gordura saturada.

A seguir, veja os valores máximos para cada um.

Açúcares adicionados

O produto estampará a lupa se tiver:

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+ Quantidade maior ou igual a 15 g de açúcares adicionados por 100 g do alimento (sólido).
+ Quantidade maior ou igual a 7,5 g de açúcares adicionados por 100 ml do alimento (líquido).

Gorduras saturadas

O produto estampará a lupa se tiver:

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+ Quantidade maior ou igual a 6 g de gorduras saturadas por 100 g do alimento (sólido).
+ Quantidade maior ou igual a 3 g de gorduras saturadas por 100 ml do alimento (líquido).

Sódio

O produto estampará a lupa se tiver:

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+ Quantidade maior ou igual a 600 mg de sódio por 100 g do alimento (sódio).
+ Quantidade maior ou igual a 300 mg de sódio por 100 ml do alimento (líquido).

Na visão de Teresa, os limites são pouco rigorosos. “Na prática, vários produtos que não são considerados saudáveis por conterem grande quantidade desses ingredientes não exibirão a advertência”, diz. Ela exemplifica: “Hoje, muitos biscoitos recheados não receberiam o selo de alto teor de gorduras saturadas, somente o de açúcar”.

E, para o Idec, um quarto ingrediente deveria receber atenção: os edulcorantes. “Sabemos que há um movimento de recorrer a eles para evitar o selo do excesso de açúcar. Isso é um problema, sobretudo para crianças”, raciocina Teresa. “Pesquisas apontam que há riscos associados ao excesso dessas substâncias”, acrescenta.

Segundo Alessandra, da Anvisa, todas as críticas foram consideradas – e as justificativas para os caminhos seguidos constam em relatórios. De qualquer maneira, ela garante que as decisões são dinâmicas. “Vamos monitorar a efetividade da norma. Se notarmos que de fato faltou algo, ou que melhorias podem ser realizadas, investiremos em alterações”.

Tem mudança na tabela nutricional também

Ainda que a presença da lupa seja o principal destaque na nova rotulagem, o consumidor vai se deparar com outros ajustes. A tabela de informações nutricionais, por exemplo, terá somente letras pretas em um fundo branco, com tamanho razoável. O objetivo é melhorar a legibilidade.

Na lista em si, será possível encontrar um dado precioso, sobre o qual não temos informação atualmente: o teor de açúcar adicionado. Trata-se daquele acrescentado artificialmente aos produtos – e mais perigoso à saúde.

Para facilitar a vida das pessoas, os fabricantes terão que declarar os valores nutricionais com base em 100 gramas ou 100 mililitros em todos os produtos. Assim, será mais fácil fazer comparações de itens de categorias diferentes, como um iogurte e uma barrinha de cereal.

Quando a medida entra em vigor

A Anvisa estabeleceu que os fabricantes têm dois anos para se adequar às medidas e modificar seus rótulos. “Se o tempo fosse menor do que esse, talvez as empresas não conseguissem cumprir a norma”, explica Alessandra, lembrando que é preciso comprar materiais e ajustar processos produtivos.

Ela ressalta ainda que esse prazo contempla a necessidade de os fabricantes esgotarem seus estoques – ou recolherem os itens para a reformulação da embalagem. “Não podemos nos esquecer de que tudo isso foi afetado pelo coronavírus”, diz.

A pandemia é mencionada também por Teresa, do Idec, mas para lembrar da necessidade de urgência na implementação da medida. “Ficou claro que hipertensão, diabetes e obesidade contribuem para casos mais graves de Covid-19. Precisamos ajudar as pessoas a fazerem melhores escolhas alimentares”, defende ela, salientando que esses quadros têm tudo a ver com a alimentação.

“Entendemos que é importante oferecer um prazo bom à indústria, mas ele não pode chegar a cinco anos”, critica. Ela faz menção a uma condição dada a bebidas não alcoólicas vendidas em embalagens retornáveis, como os refrigerantes. Esse grupo especificamente tem até 2025 para se adequar. Ocorre que os refrigerantes estão entre os grandes responsáveis pelo exagero no consumo de açúcar.

“De qualquer maneira, teremos mais transparência com essa nova rotulagem. Hoje, os riscos estão ocultos”, reconhece Teresa. “Subimos um degrau importante. Mas ainda não chegamos ao topo”, finaliza.

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Como as emoções da pandemia afetam o coração

Não há como enfrentar as intempéries da vida sem expressar algum tipo de comportamento, postura ou manifestação do nosso corpo. O ser humano é um ser racional e reacional e muitas vezes essa capacidade privilegiada de raciocinar e refletir gera um tremendo impacto no âmbito emocional, que, por sua vez, promove distintas alterações nos diversos órgãos e sistemas — notadamente no aparelho cardiovascular.

Nossas reações orgânicas ao estresse são individuais e influenciadas por características de personalidade, oscilações hormonais e fatores externos. Mas, nos últimos tempos, todos nós fomos desafiados pela pandemia do coronavírus, que aguça expectativas e incertezas que se refletem no equilíbrio da mente e do corpo. Após a Covid-19, as pessoas já não são mais as mesmas do ponto de vista psíquico e a apreensão, a angústia, a ansiedade e a depressão se tornaram mais comuns em todos os ambientes sociais.

As famílias estão temerosas quanto ao futuro da educação dos filhos, os gestores de empresas estão extremamente inseguros quanto aos próximos passos da economia e a sociedade encara, com tristeza, um cenário de desemprego, falência e falecimento, inclusive de entes queridos. É um panorama que contribui inevitavelmente para mudanças emocionais e comportamentais capazes de repercutir no coração, favorecendo o surgimento ou o agravamento de doenças cardiovasculares.

Paola Gilsan, pesquisadora da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, coordenou um importante estudo envolvendo 16 mil pessoas a fim de entender a relação entre fatores emocionais e o desenvolvimento de complicações cardíacas. Publicado no renomado The Journal of the American Medical Association (JAMA) em 2015, o trabalho traz dois resultados relevantes e interessantes. Primeiro, demonstra que pessoas depressivas ou que estão deprimidas apresentam maior risco de morrer de uma causa cardiovascular. Segundo, aponta que adultos com mais de 50 anos vivenciando uma depressão têm um risco duas vezes maior de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

Na mesma época do estudo de Harvard, a Universidade Colúmbia, também em solo americano, investigou, em 4 500 pessoas, a conexão entre estresse e depressão na rotina e a probabilidade de ter entupimentos nas artérias do coração (a doença arterial coronariana). As artérias coronárias são estruturas essenciais para a irrigação e nutrição do músculo cardíaco e, quando se encontram cronicamente obstruídas por placas de gordura, levam a um infarto. A pesquisa, liderada pela médica Carmela Alcantara e publicada na revista científica Circulation, coloca a conjunção entre estresse e depressão como uma “tempestade perfeita” que eleva em até 50% o risco de morte por infarto. 

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Tais evidências nos indicam que é muito difícil dissociar o estresse que atinge a mente daquele que acomete o sistema cardiovascular. Ambos estão intrinsecamente ligados em virtude de um agente fisiológico em comum, a resposta inflamatória. Sim, estresse gera inflamação. Quando estamos sobrecarregados, ansiosos, deprimidos ou inseguros, liberamos hormônios do estresse que desencadeiam um processo inflamatório. Ele não poupa os vasos sanguíneos, o coração e o cérebro.

Sabemos que a inflamação crônica contribui com o depósito gradual das placas que entopem as artérias. Em 2017, um estudo tocado pela equipe da pesquisadora Ilze Bot concluiu que pessoas estressadas tendem a ter mais infartos em função da maior resposta inflamatória no organismo. O trabalho comprovou o papel da inflamação desencadeada pelo estresse no depósito progressivo das placas de gordura nos vasos.

Voltando para os dias de hoje, notamos que a pandemia mudou o estilo de vida de muitas pessoas. Milhares de brasileiros estão se alimentando pior, fazendo menos atividade física e enfrentando a tensão emocional. Precisamos estar atentos a isso, inclusive porque a vivência de emoções negativas aumenta o risco de hipertensão e arritmias cardíacas. Ainda em 2019, o professor de psicologia Peter Gianaros se aprofundou sobre o assunto e mostrou que os circuitos neurais de uma pessoa — suas inúmeras conexões entre os neurônios — são particularmente afetados em momentos de ansiedade e hostilidade, situação que amplia a escala e magnitude dos problemas cardiovasculares independentemente de outros hábitos, saudáveis ou não.

A Covid-19 mudou a concepção de vida das pessoas e tem acarretado um profundo impacto social e emocional que pode transbordar para a saúde cardiovascular. Precisaremos aprender a conviver com a nova realidade, buscar alternativas para se cuidar e prevenir a sobrecarga e, cientes da estreita ligação entre estresse mental e estresse cardíaco, manter o acompanhamento médico em dia pelo bem do coração.

* Edmo Atique Gabriel é cardiologista e cirurgião cardiovascular, professor livre-docente, conselheiro de residência médica do Ministério da Educação e autor do blog Coração Moderno

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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A febre da proteína

Ovo, carne e feijão são os primeiros alimentos lembrados quando o assunto é proteína. Mas uma espiada nas prateleiras dos supermercados revela pães e biscoitos, os grandes ícones dos carboidratos, como as novas fontes desse nutriente. Além deles, achocolatados, iogurtes, vitaminas e barrinhas, entre outros produtos, alardeiam em suas embalagens o acréscimo do ingrediente. “Essa tendência é global e traz um pouco do mundo fitness para o dia a dia”, avalia a nutricionista Cynthia Antonaccio, da consultoria Equilibrium Latam. O engenheiro de alimentos Guilherme Miranda Tavares, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista, concorda: “A incorporação da proteína chega para atender à procura cotidiana por itens mais saudáveis e práticos”.

Dados fornecidos pelas empresas Tetra Pak e Nielsen registram o crescimento de 220% no consumo de produtos com alto teor proteico, como bebidas, nos primeiros seis meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2019. Para além da academia, a proteína segue distante do tribunal inquisitório que fustiga carboidratos e gorduras há alguns anos.

Aliás, ela preenche o espaço dessa dupla, que, muitas vezes, acaba banida dos cardápios — injustamente, segundo os especialistas. Radicalismos à parte, o papel da proteína na manutenção do peso é primordial. Há evidências de que ela favorece a liberação de substâncias que interferem no sistema nervoso, inibindo a fome. “Dessa maneira, prolonga a sensação de saciedade”, explica a nutricionista Tânia Rodrigues, diretora da RG Nutri, em São Paulo.

Daí a sacada da indústria de desenvolver itens turbinados com o nutriente e que podem ser incorporados dos lanches intermediários às grandes refeições. A tendência vem ao encontro de novos estudos, que sugerem fracionar o consumo proteico a fim de garantir seu melhor aproveitamento. “Com a disponibilidade de alimentos diferenciados, caso de barras, bebidas lácteas, iogurtes, entre outros, dá para atender às necessidades ao longo do dia”, diz Antonio Herbert Lancha Jr., coordenador do Laboratório de Nutrição e Metabolismo Aplicado à Atividade Motora da Universidade de São Paulo (USP). A escolha fica ao gosto do freguês.

Os experts enfatizam, porém, que a ideia não é extrapolar na quantidade. Mesmo para uma substância tão aclamada, exageros nunca são bem-vindos. O abuso pode contribuir até mesmo para o ganho de peso. Veja: as porções adequadas variam conforme a fase da vida e as particularidades da rotina de cada indivíduo. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Advances in Nutrition, vem chamando a atenção nesse sentido. Uma equipe da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, analisou mais de 1 500 estudos sobre o tema e concluiu que ultrapassar a dose não traz benefícios adicionais.

O recado dos estudiosos é que comer mais proteína do que o indispensável não altera em nada a composição corporal quando a atividade física está fora da agenda. Isto é, os músculos não vão saltar só porque você se empanturrou de diversas fontes do nutriente.

Para alguns perfis — caso de idosos e pessoas em tratamento contra o câncer ou queimaduras —, uma quantia extra costuma ser incentivada mediante exames e cálculos feitos por nutricionistas. “Nessas situações, o metabolismo que degrada as proteínas estruturais tende a ser mais acelerado. Com o intuito de mitigar esse processo, vem a necessidade de repor o nutriente por meio da alimentação”, esclarece Lancha Jr.

Os cientistas de Purdue inserem ainda os esportistas na lista dos que precisam de aporte caprichado. Aos demais, a sugestão é incluir as proteínas em um contexto de equilíbrio, sem desprezar a cota de carboidratos e gorduras. E não adianta comer demais hoje e largar mão nos outros dias, pois os excessos do nutriente não são armazenados pelo organismo — nossas células estão usando e transformando proteínas o tempo todo.

Compostas da combinação de aminoácidos, as proteínas aparecem nas clássicas cartilhas de biologia como construtoras — tanto que são comparadas aos tijolos que sustentam uma casa. Isso porque têm papel fundamental na constituição dos órgãos e demais tecidos. O nutriente também está envolvido na produção de anticorpos e hormônios. Sem contar sua participação nas transformações químicas, quando assume a identidade de enzima. Cabe ainda a ele a função de conservar os músculos fortes e a integridade de unhas, cabelos e pele. Ufa! “As proteínas são responsáveis por manter todas as nossas atividades metabólicas”, resume a professora Viviane Alves, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Nem precisamos dizer que a falta é prejuízo na certa, né? “Sobretudo nos extremos da vida. Ou seja, na infância e na terceira idade, o déficit proteico é crítico”, sinaliza a nutricionista Silvia Ramos, do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (CRN-3). A meninada deve estar em dia com a substância para que o crescimento aconteça de forma adequada.

Entre os mais velhos, com o passar dos anos há tendência de alterações na mastigação e no paladar, além de dificuldades digestivas. Por tudo isso, não é raro que rejeitem carnes e outros redutos proteicos. Aí é essencial adaptar o consumo — com o auxílio de um profissional de saúde, se possível. Esse cuidado evita males como a sarcopenia. Marcada pela perda de massa muscular, a condição interfere na qualidade de vida dos idosos, já que acarreta fraqueza, dificuldade de locomoção e até quedas.

Cálculos mais precisos também são prescritos aos esportistas. Afinal, a proteína participa da formação e da reparação das fibras musculares, recrutadas com o esforço físico. “Fora que é importante para a produção de energia”, ressalta Tânia. Estudos mostram que o consumo bem distribuído de fontes proteicas durante o dia colabora para a recuperação após o treino e promove ganho de massa muscular.

Embora não existam dados oficiais, tudo leva a crer que o brasileiro não sofre com falta de proteína, especialmente a de origem animal. É que ovos, leite, frango e carne bovina e suína ocupam o prato de boa parte da população. Mas, no dia a dia do consultório, os nutricionistas podem analisar as necessidades individuais e, dessa forma, ajustar a quantidade de acordo com o paciente. Eis aí uma bela oportunidade de avaliar se será preciso buscar os itens turbinados nas gôndolas — e quais os melhores. Ora, muitos carregam, além de proteínas, doses consideráveis de açúcar e gordura. Tem que ter critério e atenção!

Esse recado vem em boa hora. Uma pesquisa conduzida pela agência Mintel com 1 500 pessoas mostra que 82% delas têm interesse por alimentos e bebidas mais proteicos. Até salgadinhos, normalmente ligados a uma dieta desregrada, são passíveis de ganhar simpatia caso a embalagem indique “alto teor de proteína”. É que 17% dos participantes associam o atributo a snacks mais saudáveis.

Vasculhe os rótulos

O conselho de todos os nutricionistas ouvidos para a reportagem é dar preferência aos produtos com o apelo clean label, termo vindo do inglês para designar “rótulo limpo”. Em síntese, quanto menor a quantidade de ingredientes listados na embalagem, melhor. “Não adianta oferecer alto teor de proteína juntamente com inúmeros aditivos químicos”, opina a nutricionista Silvia Ramos, do CRN-3.

As melhores opções estampam nomes de ingredientes que podem ser reconhecidos facilmente, ou seja, sem a necessidade de consultar um dicionário ou especialista. A recomendação é evitar aqueles com presença marcante de conservantes, aromatizantes e afins. E é crucial apurar cuidadosamente os teores de sódio, açúcar, gorduras saturadas e trans. O consumo desenfreado dessas substâncias não combina com saúde.

Fórmulas enriquecidas

Para incorporar porções extras de proteínas em produtos, é necessário um apurado conhecimento técnico a fim de não descaracterizar o alimento. Tavares, professor da Unicamp, afirma que se trata de um desafio constante da indústria. “É parecido com o que ocorre durante o preparo de um pudim. O doce pede a proporção exata de ingredientes, mas, se o cozinheiro resolver acrescentar ovos além da conta, pode ver a receita desandar, resultando em uma sobremesa de consistência menos apetitosa”, compara. Daí a exigência de calibrar as quantidades de todos os elementos da preparação.

Não é tarefa fácil incluir a substância em bebidas translúcidas, a exemplo de sucos ou refrigerantes. “Geralmente ocorre alteração no visual e o líquido tende a ficar opaco”, descreve o engenheiro de alimentos. Já iogurtes, leites e outras bebidas lácteas costumam manter suas características — tanto de sabor como de textura e aparência. Por isso é tão frequente encontrar opções dessas categorias enriquecidas com proteína nos corredores dos supermercados. Foram as pioneiras.

Também é imprescindível ter intimidade com todas as etapas de elaboração. Para determinadas proteínas, caso da albumina, o aquecimento é capaz de levar à coagulação, o que interfere na qualidade final. Para assegurar a integridade das versões submetidas ao aquecimento — como no processo UHT, pelo qual o leite passa —, costuma-se acrescentar agentes estabilizantes seguros. A escolha da matéria-prima é o primeiro passo para o sucesso no desenvolvimento do produto.

Um dos maiores aliados da indústria nesse sentido é o soro do leite. Repare nas embalagens: ele tende a aparecer em diversas preparações. Resultante do processo de fabricação do queijo, essa proteína é popularmente conhecida como whey protein e uma de suas vantagens é o sabor menos pronunciado. “Ela ainda apresenta excelente valor nutricional em decorrência do alto teor de aminoácidos essenciais”, afirma Tavares. A ciência tem esmiuçado as qualidades do ingrediente, e os achados são promissores.

Se o soro do leite e a albumina do ovo dão as caras nos produtos destinados aos onívoros, as leguminosas são as estrelas de formulações pensadas para os vegetarianos e veganos. “Grão-de-bico, ervilhas, feijões e lentilhas estão com tudo. São as chamadas pulses”, comenta a sempre antenada Cynthia Antonaccio. O termo, muito usado lá fora, é originário do latim e designa o caldo grosso resultante da preparação de sopas com as sementes secas desse grupo de alimentos.

As pulses servem como matéria-prima de snacks, bebidas, barrinhas e tantas novidades com a pegada plant-based, que se expande pelo mundo. Pode verificar nos rótulos. Entre o grupo, a ervilha desponta como a grande protagonista. “Ela se destaca por apresentar sabor mais neutro e solubilidade, qualidades bem-vindas aos processos industriais”, justifica o professor Tavares.

E, para quem pensa que é impossível adquirir proteína de qualidade (ou alto valor biológico, como preferem os experts) vinda de vegetais, é bom saber que esse conceito está bastante ultrapassado, como avisa a nutricionista Gabriela Parise, da clínica NutriOffice, em São Paulo, estudiosa do vegetarianismo. Não faltam estudos para comprovar o poder desse vasto reino que, além das leguminosas, abarca cereais, sementes e grãos. Um dos fatores que contam a favor da trupe é a sua capacidade de zelar pela saúde intestinal, equilibrando a microbiota.

Isso significa que há aumento tanto da quantidade quanto da diversidade bacteriana na área, o que traz benefícios digestivos e colabora para a absorção dos nutrientes. Inclusive, um trabalho recém-publicado no reputado periódico British Medical Journal associa cardápios abastecidos de proteínas vegetais a uma maior proteção contra males cardiovasculares e câncer. Os cientistas se debruçaram em dezenas de estudos para chegar a essa conclusão.

Um dos macetes para tirar proveito diretamente das leguminosas é deixá-las de molho horas antes de mandar para a panela. A estratégia, que remonta à época da vovó, acelera o tempo de cozimento e, em paralelo, reduz a quantidade dos chamados compostos antinutricionais. Assim, garante-se o desfrute integral dos alimentos, que, obviamente, não se resumem ao seu conteúdo proteico.

Tem outro segredo. “Para assegurar o melhor aporte nutritivo, escolha fontes e perfis variados no dia a dia”, sugere Gabriela. Dessa maneira, o cardápio ganha em sabores. Também é essencial fazer boas combinações. Não à toa, parte da indústria junta leguminosas e cereais, caso do arroz e do trigo, ou ainda pseudocereais, como a quinoa, para tornar as fórmulas mais ricas. Esses arranjos melhoram a performance proteica e seguem o exemplo da brasileiríssima mistura de arroz com feijão. Nesse casamento, o primeiro contém o aminoácido metionina, enquanto o segundo oferece lisina. Juntos, se completam, desempenhando atividades de forma mais eficiente dentro do nosso organismo.

Um ingrediente nacional que tem feito sucesso nos produtos industrializados é o amendoim. Quem pensa nele como abrigo exclusivo de gorduras pode se surpreender com seu patrimônio proteico. Aliás, a versão torrada é uma deliciosa alternativa para petiscar. Só não vale abocanhar punhado atrás de punhado — afinal, o alimento é calórico. E vale repetir: proteína demais nem sequer é aproveitada. Uma boa parcela deixa de ser absorvida e termina expulsa junto das fezes. Para piorar, em algumas situações o descomedimento acarreta danos, principalmente aos indivíduos mais vulneráveis. Perder a linha pode provocar dificuldades digestivas e elevar o risco de encrencas no fígado, além de favorecer distúrbios nos rins decorrentes da grande quantidade de amônia e ureia circulantes.

A professora Viviane Alves investigou os impactos do abuso proteico nos laboratórios da UFMG. “Sabemos que todos os processos no corpo atuam de forma equilibrada, e o nosso objetivo era saber o que aconteceria se a única fonte de nutrientes fosse a proteína”, contextualiza. Em parceria com pesquisadores australianos, Viviane e sua equipe usaram cultura de células humanas, a mosquinha-da-fruta Drosophila e os vermes Caenorhabditis elegans. As análises indicaram, então, que a ingestão abundante apressa o envelhecimento.

Mas, tudo leva a crer, o perigo anda mesmo colado ao abuso. Com bom senso, a proteína segue indispensável. “A nossa certeza é a de que, em excesso, tudo faz mal”, afirma a professora da UFMG. Portanto, antes de ser seduzido por embalagens, compensa checar as reais necessidades do corpo e como vai o seu cardápio. Isso, sim, deve estar acima de qualquer tendência.

Suplementos: papo à parte

Se há ponderações sobre produtos alimentícios enriquecidos com proteínas, o que se pode dizer dos suplementos que são comercializados sem prescrição e possuem esse apelo de “indispensáveis para quem faz exercícios”? “Eles devem ser consumidos com orientação profissional”, afirma Tânia Rodrigues, uma das nutricionistas mais reconhecidas na área esportiva.

A Anvisa regula as doses específicas de nutrientes e outras substâncias detectadas nessas fórmulas. Ocorre que muita gente extrapola na quantidade ingerida na intenção de ficar com o corpo sarado. Mas a exorbitância proteica nem chega a ser absorvida — ou seja, há desperdício. Isso quando ela não ameaça rins e fígado. Quem utiliza produtos importados e sem registro, muitas vezes vendidos de forma clandestina, corre riscos adicionais.

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Nem a mais, nem a menos

A recomendação de consumo diário de proteína varia conforme a idade e as atividades do dia a dia:

Bebês e crianças
0,8 gramas de proteína por quilo de peso

No início da vida, basta o leite materno. Depois, carne, feijão e outros alimentos são bem-vindos.

Adolescentes
0,85 gramas de proteína por quilo de peso

O nutriente favorece o desenvolvimento pleno. Bebidas lácteas dão uma força em meio à correria.

Adultos
1 grama de proteína por quilo de peso

Esse é um valor médio. As grávidas precisam de um pequeno acréscimo para a formação do bebê.

Idosos
0,8 a 1 grama de proteína por quilo de peso

Aqui, a tendência é vermos déficits proteicos. Lançar mão de itens enriquecidos é uma estratégia.

Esportistas
1 a 1,8 gramas de proteína por quilo de peso

Essa turma precisa de dose extra, que deve ser ajustada por um profissional de saúde.

Tem proteína na prateleira

Os supermercados desfilam uma porção de itens turbinados. Veja os destaques:

Pães
Farinhas diferenciadas, caso da de linhaça, entram na receita. Os ovos também podem ser encontrados entre os ingredientes. Há marcas que concentram 7 gramas de proteína em uma fatia.

Barrinhas
Há opções com frutas, outras com cereais e as que trazem sementes e oleaginosas. Fornecem cerca de 10 gramas de proteínas. Para melhores escolhas, compare os níveis de açúcar.

Iogurte grego
Um dos produtos pioneiros no mercado de alto teor proteico. Um pote com 130 gramas incrementa o cardápio com 13 gramas de proteína. Não se esqueça de conferir teores de gordura e açúcar.

Salgadinho
Proteínas vegetais vindas de leguminosas como a soja e a ervilha enriquecem os chamados snacks proteicos, que chegam a conter 7 gramas em um pacote. Aqui, vale olho atento ao sódio.

Cookies
São uma possibilidade para o lanche da tarde da molecada. Elaborados com proteína vegetal, há os que ofertam 10 gramas do nutriente em duas unidades. Mas nada de exagero, combinado?

Pó para vitaminas
A criatividade do cozinheiro é que manda. Dá para misturar com frutas, entre outros ingredientes. Uma colher chega a proporcionar 20 gramas de proteína.

Leite
Se os tipos comuns já são belas fontes de proteína, as versões turbinadas se mostram interessantes para quem precisa de reforço. Um copo de 200 mililitros chega a conter 10 gramas do nutriente.

A proteína vai à mesa

Entre fontes vegetais e animais, experimente incluir mais variedade no cardápio:

Carne bovina assada
1 bife de 100 g = 25 g de proteínas

Quinoa
4 colheres (sopa) ou 50 g = 7 g de proteínas

Ovo cozido
1 unidade média de 45 g = 6,5 g de proteínas

Tofu
Bloco de 50 g = 3,3 g de proteínas

Salmão grelhado
1 posta de 100 g = 26 g de proteínas

Feijão cozido
1 concha ou 100 g = 4,8 g de proteínas

Amendoim torrado
1 punhado ou 30 g = 6 g de proteínas

Grão-de-bico cozido
1 concha ou 100 g = 6,6 g de proteínas

Leite desnatado
1 copo de 200 ml = 7,2 g de proteínas

Queijo minas
2 fatias ou 50 g = 8,5 g de proteínas

Iogurte
1 copo de 200 ml = 8 g de proteínas

Frango assado
1 coxa grande ou 55 g = 10 g de proteínas

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Equipamentos com raios ultravioleta inativam o coronavírus?

Desde o início da pandemia de Covid-19, cientistas passaram a pesquisar novas tecnologias para enfrentar o novo coronavírus (Sars-CoV-2), como as máscaras e roupas antivirais. Outra invenção que tem sido testada são equipamentos que emanam radiação ultravioleta para desinfetar superfícies e ambientes. Mas será que isso realmente dá certo?

O microbiologista Lucio Freitas Junior, coordenador do Laboratório Phenotypic Screening Platform, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), conta que o uso de raios UV com esse objetivo já era conhecido, principalmente em consultórios odontológicos. “Existem protocolos específicos para esterilização dos materiais dos dentistas”, relata.

O ultravioleta inativa vírus em geral modificando o material genético deles, o que os impede de continuar se replicando. Isso é diferente do efeito proporcionado pelo álcool gel e pelo sabão, que destroem a camada externa dos agentes infecciosos.

Só que não é qualquer radiação que funciona. Você provavelmente já ouviu falar dos subtipos UVA e UVB quando foi comprar um protetor solar. Eles são emitidos pelo Sol e, em excesso, provocam envelhecimento da pele, queimaduras e até câncer.

Já os equipamentos que estamos abordando recorrem aos raios UVC para eliminar germes do ambiente. Eles também são emanados pela luz solar, mas a maior parte fica retida na camada de ozônio.

Os raios UVC funcionam especificamente contra o coronavírus?

Com a pandemia, cientistas decidiram investigar essa questão. Uma pesquisa foi feita na USP e inclusive contou com a participação de Freitas. A equipe concluiu que, com a ação de lâmpadas de mercúrio irradiando UVC, mais de 99% das partículas virais de Sars-Cov-2 foram inativadas in vitro — ou seja, em placas isoladas no laboratório.

Ainda que existam evidências da eficiência dos raios UV diante do novo coronavírus, é importante ponderar algumas coisas. Em nota técnica publicada em agosto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pontua que pesquisas como essa foram conduzidas em condições muito específicas e controladas. Isso é diferente do que acontece na vida real.

Por exemplo: uma parede coberta com algum tecido não ficaria livre do Sars-CoV-2 mesmo após o uso de uma lâmpada UVC. Segundo Freitas, essa radiação não atravessa superfícies opacas, nem mesmo uma folha de papel sulfite. Salas muito grandes e a própria potência da lâmpada também influem no resultado.

Avaliar a eficácia (e a segurança) dessa tecnologia na vida real é importante para determinarmos seus benefícios reais. A Anvisa conclui sua nota dizendo que, para serem vendidos como desinfetantes de ambientes públicos e superfícies em geral, os apetrechos que emitem raios ultravioleta devem apresentar comprovação de eficácia contra a Covid-19.

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A startup paulista BioLambda é uma das que fabricam esse tipo de máquina. Eles comercializam câmaras de higienização de máscaras, dispositivos para limpar superfícies e purificadores de ar. Os dispositivos possuem laudos disponíveis no site.

Outro exemplo é a empresa Signify. Estudos realizados pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, indicam que as fontes de luz UVC dessa marca eliminam o Sars-CoV-2 em certas condições.

Há também a Meister Safe System, que esteriliza os ambientes através de um sistema de biossegurança. Diferentemente dos outros exemplos citados, a ideia é criar um projeto personalizado e completo para cada cliente, e não vender produtos avulsos.

Juliano A. Dillenburg, diretor técnico da Meister Safe, conta que eles levam em consideração as características de cada espaço (tamanho, material das paredes, circulação de pessoas etc). “Tudo isso é analisado para instalarmos equipamentos, luminárias e sistemas que emitem radiação UVC quando não há ninguém no ambiente”, complementa Dillenburg.

 

Uma dose de cautela

Antes de tudo, cabe deixar claro que receber raios UVC diretamente no corpo para eliminar eventuais vírus é uma péssima ideia. Freitas alerta para o perigo de queimaduras e danos irreversíveis na visão. “O grande problema é a questão da segurança. É um tipo de radiação que destrói as células”, afirma. Água e sabão já dão conta do recado.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição prolongada aos raios UVC também pode gerar câncer.

O microbiologista do ICB afirma essa tecnologia não foi criada para uso doméstico. “Ela se mostra útil em grandes ambientes públicos, como shoppings, escolas e consultórios”, informa. Os raios, claro, devem ser aplicados fora do horário de funcionamento.

A Anvisa não recomenda esses instrumentos para limpeza das mãos, nem como estratégia única para desinfetar ambientes públicos e hospitalares. Em outras palavras, a higienização tradicional, com produtos aplicados nas superfícies, segue fundamental.

“Eles podem dar a falsa impressão de segurança. Imagine uma pessoa sem informação colocando raios UV direto no rosto? Temos que tomar cuidado”, avisa Freitas.

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