sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Outubro Rosa: 7 novidades sobre o câncer de mama de exames a tratamentos

O Outubro Rosa de 2020 chegou com muitas novidades sobre o câncer de mama, o tumor mais comum entre as mulheres no mundo todo. De exames a novos tratamentos, confira sete avanços recentes na área:

1. Tecnologia diminui número de sessões de radioterapia

Para tratar o câncer de mama, podem ser necessárias 30 sessões de radioterapia. Mas, com o chamado hipofracionamento, a quantidade de aplicações cai para até cinco. É que essa tecnologia consegue aumentar o número de doses de radiação sem colocar a vida da paciente em risco.

Anteriormente, a radioterapia era condenada por alguns especialistas devido à grande possibilidade de causar estragos no coração quando o tumor se encontrava do lado esquerdo do peito. Porém, com o aprimoramento da terapia, ela voltou a ser uma opção viável.

“Hoje, são feitas programações mais sofisticadas e menos doses chegam ao pulmão. E, quando o tratamento é na mama esquerda, o benefício é incrível, pois reduz drasticamente a dose no coração”, informou a radio-oncologista Lilian Faroni, do Hospital São Vicente da Gávea – Oncologia D’Or, no Rio de Janeiro, em comunicado à imprensa.

Em tempos de pandemia, com as pacientes evitando idas às clínicas e aos hospitais, o hipofracionamento se mostra uma alternativa ainda mais útil.

De acordo com a assessoria da Elekta, fabricante de equipamentos de radioterapia, a estratégia vem sendo aplicada mais extensamente nos últimos dois anos e pode ser usada para quase todos os tipos de câncer de mama.

2. Reforço da cardio-oncologia

Falando em coração, uma subespecialidade médica da cardiologia nasceu em hospitais da rede pública brasileira para complementar o acompanhamento das mulheres com neoplasias da mama: é a cardio-oncologia.

De acordo com a cardiologista Marina Bond, especialista do CPO Oncoclínicas nessa nova área, em São Paulo, a especialidade foca em prevenção, diagnóstico e tratamento das complicações cardiovasculares que podem surgir devido às diversas terapias realizadas no combate ao câncer de mama.

A necessidade de recorrer à cardio-oncologia vai depender do tipo e da localização do tumor, além do tratamento utilizado. “Tanto os oncologistas quanto os pacientes estão começando a ver a importância de ter por perto um cardiologista que saiba lidar com as peculiaridades dos portadores de câncer”, comenta Mariana. “Atuamos com o intuito de evitar danos e principalmente garantir que os efeitos colaterais não compliquem nem interrompam a terapia oncológica”, acrescenta.

3. Mais uma opção de teste genômico para evitar a quimioterapia

Os testes genômicos já são conhecidos na oncologia para encontrar mutações em genes específicos nos tumores. E, agora, as brasileiras terão mais uma opção com cobertura dos planos de saúde.

A Exact Sciences desenvolveu um teste chamado Oncotype DX® Breast Recurrence Score, que promete identificar a possibilidade de recorrência da enfermidade nos próximos 10 anos e também avaliar se a quimioterapia é o tratamento mais indicado.

O estudo que indica a eficácia do exame foi realizado em parte no Brasil. Das 155 voluntárias tratadas no país entre agosto de 2018 e abril de 2019, 97% (ou seja, 151) receberam a recomendação inicial de fazer químio, além de terapia hormonal. Mas, após a análise dos testes genômicos, 69% (104) foram poupadas desse tratamento porque se concluiu que ele não seria necessário.

“Além de conseguirmos identificar quem de fato se beneficiará da quimioterapia, observamos um melhor uso dos recursos de saúde”, comentou o oncologista Sergio Oliveira, diretor médico da Exact Sciences para América Latina, em comunicado à imprensa.

A abertura para consulta pública da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está prevista para acontecer em outubro.

4. Medicamento contra tumor de alto risco

Um estudo publicado no periódico científico Journal of Clinical Oncology trouxe resultados animadores sobre o câncer de mama HR+/HER2-, que responde por cerca de 70% de todos os casos.

Apresentada no Congresso Virtual da Sociedade Europeia de Oncologia Médica de 2020 (Esmo), a pesquisa mostrou que, combinado à terapia endócrina padrão, o medicamento abemaciclibe reduziu em 25% a possibilidade de recidiva – a volta do tumor – em participantes recém-operadas, em comparação com o tratamento padrão.

O oncologista Gilberto Amorim, da Rede D’Or, no Rio de Janeiro, conta que, nos últimos 20 anos, o procedimento adotado para essas pacientes tem sido praticamente o mesmo: elas passam por cirurgia para retirar o tumor, permanecem realizando químio ou radio e usam remédios orais durante cinco a dez anos para prevenir a recorrência – algo que é bem comum quando falamos do HR+/HER2-.

O que os estudiosos do laboratório Eli Lilly fizeram foi testar a eficácia do abemaciclibe como parte desse esquema padrão em um período de dois anos. As análises contaram com a participação de 5 637 mulheres de 38 países, incluindo o Brasil.

“O resultado impressionou porque foi a primeira vez que vimos a ação dessa classe medicamentosa em tumores iniciais de risco alto. É um estudo sério, com um número robusto de voluntárias e conduzido por pesquisadores de ponta”, comenta Amorim.

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Ainda serão necessárias outras pesquisas e também um acompanhamento mais longo antes de qualquer aprovação. Por isso, não dá para prever sua disponibilidade.

“Ter um tratamento mais efetivo é realmente impactante. A última grande mudança na terapia anti-hormonal chegou ao Brasil na virada do século”, aponta o oncologista.

5. Nova edição do livro “Vencer o Câncer de Mama”

A doença ainda é cercada de mitos. Por isso, o Instituto Vencer o Câncer lançou, no dia 1º de outubro de 2020, a segunda edição do livro “Vencer o Câncer de Mama”, que traz informações atualizadas sobre a neoplasia, os fatores de risco, o diagnóstico, a prevenção e os tratamentos existentes.

A edição revisada foi coordenada pelos oncologistas Antonio Carlos Buzaid, Fernando Maluf e Débora Gagliato, e conta com oito novos capítulos, que complementam os 20 temas presentes na primeira versão. O conteúdo foi produzido a partir de perguntas e respostas elaboradas por uma equipe multidisciplinar – ilustrações ajudam na compreensão.

Segundo a assessoria do instituto, uma parte dos mil exemplares impressos será distribuída para os pacientes da BP- A Beneficência Portuguesa de São Paulo, parceira do projeto, e a outra será vendida em estabelecimentos que apoiam a causa, com a renda revertida para o Instituto Vencer o Câncer.

O livro também está disponível online gratuitamente no site para download. Clique aqui para baixar.

6. Medicamento contra o câncer metastático disponível no SUS

Na coletiva de imprensa do coletivo Pink, iniciativa da farmacêutica Pfizer para conscientizar sobre o câncer de mama metastático — ou seja, em estágio avançado —, a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, diretora do corpo clínico e coordenadora da Oncologia Clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) falou a respeito das novidades no tratamento desse tumor.

A principal, segundo ela, é a incorporação do pertuzumabe no Sistema Único de Saúde (SUS). Essa droga, associada a outras, gera um maior controle sobre o subtipo HER2+, o mais agressivo de todos, do tipo metastático.

“O remédio aumenta a sobrevida das pacientes. Ele já estava disponível no setor privado e entrará também no SUS a partir desse mês. É um avanço bem importante”, comenta a especialista do Icesp.

Segundo a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), a incorporação do pertuzumabe ao SUS aconteceu na verdade em 2017, mas ele não foi disponibilizado por falta de acordo para compra do medicamento. Após campanhas e mobilizações de entidades e pacientes, o governo finalmente deu esse passo.

7. Obrigatoriedade da ultrassonografia mamária pelo SUS agora é lei

A mamografia é o principal exame usado para diagnosticar o câncer de mama. Só que nem sempre ela é suficiente para visualizar as alterações no órgão, como pode acontecer em mulheres que têm o tecido denso. Nessas situações, é essencial lançar mão da ultrassonografia.

Acontece que, até o início de 2020, o SUS garantia apenas a realização da mamografia para rastreio do tumor na população feminina acima dos 40 anos.

Por isso, o dia 12 de março de 2020 ficou marcado por uma importante vitória: a sanção de uma lei que obriga a rede pública a realizar a ultrassonografia mamária em jovens com elevado perigo de ter a doença ou que não possam ser expostas à radiação, e em mulheres de 40 a 49 anos de idade ou com alta densidade mamária.

Dessa forma, o acesso ao diagnóstico precoce será ampliado. Lembrando que a indicação do exame depende de avaliação do médico.

Nem tudo são flores

Infelizmente, não há só boas notícias sobre o câncer de mama. É preciso finalizar essa lista com um alerta, cuja relevância ficou nítida após uma investigação do Instituto Avon e do Observatório de Oncologia.

Os pesquisadores analisaram a cobertura mamográfica do Brasil de 2015 a 2019, registrada pelo SUS, e constataram que, de lá para cá, houve uma redução de 4%.

No último ano, o rastreamento chegava em apenas 23% entre mulheres de 50 a 69 anos de idade, sendo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que a cobertura da mamografia nessa faixa etária seja de 70%.

O levantamento também mostrou que 47% dos diagnósticos acontecem já em estágios avançados. Já o tempo médio da primeira consulta até o começo do tratamento ambulatorial demora, em média, 113 dias — um número bem acima do estipulado pelas leis dos 30 e 60 dias.

A mastologista Juliana Francisco, da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e consultora médica do Instituto Avon, explica que um dos principais fatores que impactam na cobertura mamográfica é o acesso ao exame – seja por medo, falta de conhecimento ou impossibilidade de agendamento próximo.

“Também temos que levar em consideração a qualidade da mamografia, o que impacta na detecção precisa da suspeita”, destaca a especialista.

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Doação de leite segue essencial na pandemia

No começo da pandemia do coronavírus, o Banco de Leite Humano (BLH) do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), no Rio de Janeiro, registrou uma queda aproximada de 10% nos estoques de leite materno. “Esse momento foi marcado por muito medo”, nota Danielle Aparecida da Silva, coordenadora do programa.

Após avaliar a segurança do processo, e reforçar ainda mais seus protocolos, o BLH passou a tranquilizar as mães. “Não é preciso parar de amamentar nem de doar. As evidências mostram que o vírus não passa para o leite”, resume Danielle.

Ela lembra que há uma série de recomendações para uma doação segura — válidas desde antes da Covid-19 — e que a mulher nem precisa se deslocar para entregar o alimento. “Profissionais de saúde realizam a coleta domiciliar”, conta. Para bebês internados e que não podem ser amamentados, a atitude faz toda a diferença.

 

<span class="hidden">–</span>Ilustrações: Laura Luduvig/SAÚDE é Vital
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Entrevista: Para viver com saúde a gente precisa refletir sobre a morte

Tom Almeida atuou na área de marketing em diversas empresas — ele inclusive criou sua própria agência. Mas a coragem nos negócios, claro, não o impedia de conviver com seus receios. “Se eu olhar na minha história, sempre tive muito medo da morte”, diz, em entrevista exclusiva a Veja Saúde.

Por muito tempo sua relação com a ideia do fim da vida não foi equilibrada. Mas três casos na própria família o fizeram repensar esse momento: em um intervalo relativamente curto de tempo, sua mãe, seu pai e um primo morreram e o obrigaram a enfrentar de frente esse assunto.

A partir desses episódios e de tantos outros ensinamentos, Tom Almeida entendeu a importância de a sociedade discutir abertamente a questão da morte e da finitude. De acordo com ele, essa atitude estimula a busca por bem-estar físico e mental. “Para viver intensamente e com mais saúde, a gente precisa refletir sobre a morte”, afirma.

Entre outras iniciativas decorrentes dessa mudança de postura, Tom Almeida criou o Festival inFINITO. Em 2020, o evento chega a sua terceira edição discutindo a morte sob diferentes perspectivas. Destinado para toda a população, ele acontece nos dias 3 e 4 de outubro, com convidados do Brasil e do resto do mundo.

Nesta entrevista, Tom Almeida traz sua visão sobre a morte — não se trata de negar a tristeza, mas de olhar para ela com maturidade. Ele ainda discute sua visão de saúde, o papel da Medicina no fim da vida, os cuidados paliativos… E traz o efeito da pandemia de coronavírus (Sars-CoV-2) nessa temática. Confira:

Veja Saúde: Comumente, as pessoas veem saúde como um sinônimo de maior distância possível da morte. Como você enxerga isso?

Tom Almeida: Hoje, as pessoas se relacionam com a morte com dois sentimentos principais, que dominam tudo: medo e muita dor. Óbvio que eles fazem parte desse processo da morte, mas fica uma visão limitada. Por isso que ninguém relaciona com ela de maneira saudável. Nada de positivo pode caber em um espaço onde só há medo e sofrimento.

Quando você passa a se relacionar melhor com a ideia de que a morte é um processo natural, que tudo tem seu fim, surge uma visão menos negativa. Obviamente, a morte é o fim de um ciclo, mas pode ser uma morte natural.

Não dá pra falar de morte saudável, porque é o fim da saúde por um ângulo. Mas você pode olhar de maneira saudável para a morte. Inclusive você vai viver de forma mais intensa por esse caminho.

Qual a importância de termos uma visão de que a morte não é um aspecto puramente macabro da vida?

Com isso, a gente se relaciona com a vida de forma mais madura. Ignorar que a morte vai acontecer é uma forma quase infantil de lidar com a vida. Porque a morte vai acontecer. Não dá para cruzar os braços e não brincar.

Se eu olhar pra isso e entender que um momento isso vai acontecer e pensar em como isso vai acontecer, começo a ter uma reflexão da minha vida. Como eu vou aproveitar da melhor forma possível a minha vida?

Eu acho que, ao antecipar essa relação com a morte, você não deixa um monte de coisa pra última hora. Porque, no fim das contas, pode não dar tempo. Eu penso sobre meus valores, quais pessoas quero me relacionar, que tipo de relação quero ter. A morte traz a perspectiva de uma vida mais bem vivida.

Como a gente se relaciona de maneira mais saudável com a morte, mas sem ficar obcecado?

Eu acho que primeiro precisamos estar abertos para essas conversas. O medo que eu sinto é do processo da morte ou do que vai acontecer depois? Se eu tenho medo de sofrer, o que fazer? A medicina tem formas de cuidar melhor do fim da minha vida. E eu posso me informar sobre isso.

Ah, mas e se eu tenho medo do que pode acontecer após a minha morte? Então a questão envolve mais espiritualidade e eventualmente o sustento da família. E dá para planejar essas coisas também. É um processo de autoconhecimento.

Relacionar-se com a morte envolve pensar ativamente no processo. Eu não estou sendo inovador aqui. Se for olhar para diversas culturas, religiões e linhas de pensamento bem antigas, você vai ver como há uma relação mais concreta com a morte.

Quando um monge budista encontra o outro, ele diz “até amanhã ou até a próxima vida”, sabendo que isso pode acontecer. É essa perspectiva de começar aos poucos a se relacionar com isso. E um bom ponto de partida é pensar quando você foi tocado pela morte ou por um assunto ligado a ela.

No seu caso, como a morte te tocou de maneira mais significativa?

Se eu olhar na minha história, eu sempre tive muito medo da morte. Para estabelecer uma relação boa, não foi fácil. Eu morria de medo dos meus pais morrerem, principalmente a minha mãe. E daí o primeiro contato mais próximo foi a morte dela, há cinco anos trás.

E aí foram três mortes seguidas. Um ano após a da minha mãe, foi a de um primo muito próximo e, no ano seguinte, a morte do meu pai. E isso mudou completamente minha percepção.

Na minha mãe, eu me senti totalmente refém do processo. As escolhas eram sós dos médicos. Agora vai ser isso, agora vai para UTI, afora vai ser entubada, agora vai ser sedada. E isso sem eu saber o impacto dessas decisões. Não teve compartilhamento de decisão. Eu pensei: esse é o pacote da dor.

Eu não conversei com minha mãe, eu não sabia o que ela queria. Eu só entendi que era daquela forma. O que eu sei hoje eu não sabia, então fui refém.

Com meu primo, que morreu novo, com 41 anos, eu comecei a abrir conversas. Ele estava na fase terminal, e ninguém tinha coragem de falar sobre o que estava acontecendo. Como você está? Você está com medo da morte? Eu tive coragem de falar sobre isso.

E ele recebeu bem. A partir do momento que abri espaço para essa conversa honesta, sem julgamento, criou-se um espaço de intimidade e confiança. Foi ali que descobri os cuidados paliativos, que é a abordagem da medicina que cuida do sofrimento. A gente começou a cuidar do sofrimento dele e ver as possibilidades de melhorar a qualidade de vida. A morte iria acontecer e ali a gente entendeu isso. Mas como viver melhor até que aconteça?

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Depois olhei para o meu pai. Meu pai estava com 86 anos. Não tinha nenhuma doença, mas estava frágil e a coisa estava acontecendo. Eu falei: preciso abrir essa conversa com ele. Não quero que aconteça o que aconteceu com minha mãe.

Aí fui conversar com ele sobre medo da morte, sobre o que era importante para ele. O que ele gostaria de fazer, quando não valeria mais a pena viver. Isso foi nove meses antes da morte dele, então muitas das decisões que a gente tomou no hospital foram em função dessa conversa e da experiência com minha mãe.

Por exemplo: eu questionei mais as decisões dos médicos. Meu pai acabou não indo pra UTI, porque eu perguntei o que ela ofereceria a mais para o bem-estar dele, em comparação com ficar no quarto com a família. Ele teve um ambiente familiar. A gente pode se despedir, pegar na mão dele.
Em dado momento, alguns médicos falaram de sedá-lo. E eu questionei de novo: por quê? Meu pai estava confortável, sem dor. Sedação é para dor. Ele está morrendo, mas não está sofrendo. O desconforto era do médico. Quando meu pai estiver desconfortável, aí claro que vamos ver. Mas isso foi três dias antes da morte dele. Poderiam roubar três dias de vida do meu pai.

Com essas experiências, eu reparei que precisava compartilhar esse tipo de coisa. Com o movimento inFINITO, eu tenho uma meta muito ousada de fazer com o que o Brasil se torne um dos dez melhores países para se morrer.

Como você define saúde?

Meu conceito de saúde é olhar para o corpo como um templo. Eu tenho uma máquina para cuidar, fazer manutenção. Esse é o ponto de partida, mas vai além. Tenho que cuidar da saúde mental, da saúde espiritual, porque sou um ser completo e complexo.

Eu consigo fazer isso sempre e contemplar tudo sempre? Não! Mas é um caminho, uma consciência pelo menos de focar nisso. É uma jornada.
Você não falou sobre morte nesse conceito.

Pois é! O tanto que eu falo da morte é porque, na essência, ela nos obriga a falar sobre a vida. Por isso que eu fico tão feliz com o evento inFINITO. As pessoas saem inspiradas, querendo falar de vida. Sai todo mundo cheio de vida, querendo viver. Para viver intensamente e com mais saúde, a gente precisa refletir sobre a morte.

E o festival deste ano do inFINITO, como vai ser?

A gente está indo pra 3ª edição. Ela vai ser totalmente virtual e queremos tirar o maior proveito disso, incluindo pessoas do brasil e do mundo inteiro.
O guarda-chuva é “conversas sinceras sobre viver e morrer”, com um time de pessoas de diferentes áreas. Eu vou trazer uma grande referência em cuidados paliativos, que o BJ Miller. Ele tem inclusive um documentário na Netflix chamado a Partida Final. Ele é um espetáculo. Aí tem palestra e depois uma conversa.

Outra pessoa que estamos trazendo é o Andrew Solomon, que escreveu O Demônio do Meio-Dia (clique aqui para comprar), um livro importante sobre depressão e suicídio, que são os grandes temas do momento.

Ainda teremos o Dallas Graham, que é um designer e trabalha com crianças com doenças raras que ameaçam a vida. Ele pergunta para elas: “Se você fosse contar uma história para o mundo inteiro, o que seria?”

E daí vai desenhando a história junto com a criança e tirando fotos. A criança vira uma autora. Ela cria uma história ingênua, mas cheia de tapa na cara para os adultos. E depois o Mauricio de Souza vai conversar com ele. E teremos muitas outras coisas bacanas. Todo ser humano pode e tem que participar!

Os cuidados paliativos e as decisões compartilhadas no fim de vida têm ganhado força?

Eu tenho visto melhora, mas precisamos caminhar muito ainda. É uma melhora sutil, pequena em porcentual. Mas para pessoa que perdeu alguém de forma digna, o luto é muito mais saudável. Se a gente pensar que, para cada pessoa que morre, de quatro a dez outras pessoas entram em processo de luto, é bastante benéfico.

Ainda existe resistência, mas eu estou vendo uma revolução em empoderar os pacientes e os familiares. Estou vendo paciente perguntar: o que esse tratamento vai gerar de benefício e qual seu impacto? E se eu não quiser fazer, como vai ser? Ainda existem médicos resistentes a isso, porque questiona o poder deles. Mas existe um movimento positivo.

Essa revolução, que lidero com o inFINITO, vai vir antes pela sociedade civil, que pode pressionar os profissionais. Quando meu pai morreu, basicamente não tinha serviço de cuidados paliativos. Eu brinco que quase implantei os cuidados naquele hospital. Se as pessoas têm o olhar e o conhecimento, elas começam a mudar o cenário.

Isso não menospreza as intervenções médicas, certo?

De maneira alguma. A Medicina é super importante. Os cuidados paliativos cuidam do sofrimento de pessoas com doença grave que ameaçam a vida. E isso pode ser feito no começo ou na fase terminal. E pode acontecer em paralelo com o tratamento.

Eu conheço várias pessoas que já tem câncer metastático e estão em tratamento para gerenciar a doença, já sabem que não tem cura. E o cuidado paliativo vai trazer o conforto aí. A Medicina é muito bem-vinda.

E um bom paliativista precisa ter conhecimento técnico profundo. Cuidar da dor de uma pessoa não é simples, tem técnica. Hoje, os profissionais de saúde no Brasil ainda cuidam mal da dor. Ainda tem no ambiente médico aquela frase: “Não existe mais nada a ser feito”. Pode não ter para a doença, mas para a pessoa existe um milhão de coisas a serem feitas para pelo menos trazer conforto.

Mas é bonito que a nova geração de médicos está olhando para isso. Eu falo para os estudantes de medicina com os quais tenho contato que, se você só olha para a cura, você vai fracassar. Mas a mentalidade de cuidar o melhor possível, aí você sempre vai ganhar. E não que não tenha que olhar para cura. Pode olhar. Mas tem que pensar no cuidado também.

O jeito de olhar a morte e o luto mudou com a pandemia?

Ganhou-se mais visibilidade. Ela ficou mais próxima de mim e da minha família. As pessoas falam: “Isso pode realmente acontecer comigo”. Eu posso perder meu avô, meu pai. Isso escancarou nossa finitude, nossa impermanência. No início da pandemia, as pessoas estavam com muito medo da morte. E abriu a curiosidade: e se isso acontecer, o que fazer?

Foram provocadas a pensar sobre isso. Eu sinto essa diferença com o movimento inFINITO. O número de pessoas que passou a me seguir, a acompanhar os eventos, dobrou.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A batalha por insulina com o governo brasileiro

Estamos constantemente mobilizados para aprimorar o tratamento e o acesso a uma saúde de qualidade entre os milhões de brasileiros que convivem com o diabetes. E não podemos baixar a guarda.

Depois de uma ação integrada entre a Sociedade Brasileira de Diabetes, a ADJ Diabetes Brasil, 35 associações de pacientes e outras entidades médicas com o objetivo de convencer o Ministério da Saúde sobre a superioridade de eficácia das insulinas análogas de ação rápida, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos finalmente incorporou esses medicamentos ao SUS em fevereiro de 2017 a fim de melhorar o tratamento de pessoas com o diabetes tipo 1.

Depois de muita pressão dessas instituições, somente em novembro de 2018 a ADJ recebeu o comunicado de que as insulinas haviam chegado de fato e iriam ser disponibilizadas para os pacientes brasileiros nas unidades dispensadoras do país. Assim, foram adquiridas quase 4 milhões de canetas de insulina análoga de ação rápida para atender 396 050 cidadãos com diabetes tipo 1.

No ano passado, alertamos insistentemente o Ministério da Saúde de que havia uma burocracia enorme para retirar essas insulinas. Para ter acesso à medicação, os pacientes tinham de levar uma receita médica assinada por um endocrinologista — sendo que nem todos os municípios brasileiros contam com essa especialidade — e o laudo de medicamento especializado (LME) preenchido por esse profissional, algo que pode levar mais de 40 minutos. Em alguns estados, ainda são solicitadas atualizações das prescrições médicas a cada três meses, salvo agora na pandemia. No geral, observamos uma falta de conhecimento sobre essa nova tecnologia no SUS tanto entre médicos como entre pacientes.

Mas o Ministério da Saúde não nos deu ouvidos. Em 2020, o governo ficou sem falar conosco por meses alegando a pandemia. Por isso, resolvemos montar uma estratégia de guerra. Levantamos os dados via Lei de Acesso à Informação, ferramenta que permite a qualquer cidadão solicitar informações a órgãos e entidades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, sem precisar apresentar qualquer motivo.

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Assim, em agosto, soubemos que somente 11% das pessoas com diabetes tipo 1 tiveram acesso ao medicamento fornecido pelo SUS. Fizemos as contas e percebemos que entre 900 mil e 1,4 milhão canetas já adquiridas, porém não distribuídas, iriam vencer até junho do ano que vem.

Toda a diretoria e o conselho da ADJ Diabetes Brasil ficaram revoltados. Com essas informações em mãos, desenvolvemos uma estratégia que pode e deve ser aplicada por qualquer associação de pessoas com uma doença ou grupos em prol de uma causa: lançamos uma campanha digital nas redes sociais com a hashtag #insulinaacessofacil e começamos a compartilhar mensagens marcando o @MinisteriodaSaude. Mobilizamos as associações de pessoas com diabetes, influenciadores digitais e outros atores da sociedade. Ao todo, alcançamos mais de 300 mil brasileiros.

Não paramos aí e sensibilizamos a imprensa para divulgar e cobrar respostas sobre a situação. Como o Ministério da Saúde percebeu que seguiríamos em frente, fizemos uma reunião com seus representantes e a instituição se comprometeu a retirar o LME para dispensação da insulina e a formar um grupo de trabalho, com o qual poderemos discutir como será a disponibilização do medicamento nos postos de saúde e como reduzir o desperdício de insulinas.

Continuaremos acompanhando essa questão e propondo e monitorando outras políticas públicas de acesso para qualificar o tratamento do diabetes no Brasil. E aproveito para finalizar com uma mensagem: quando mostramos ao governo que estamos unidos e nos empoderamos com a informação, que nossa causa é legítima e somos ativos na fiscalização dos programas públicos, que as dificuldades podem ser resolvidas na esfera coletiva e que o voto e a cidadania conscientes são decisivos para construir uma sociedade mais justa e zelosa de seus deveres e direitos, abrimos um caminho para um país mais igualitário e feliz.

* Vanessa Pirolo é jornalista, tem diabetes tipo 1 há 20 anos e representa 35 associações de diabetes em políticas públicas junto ao Governo Federal pela ADJ Diabetes Brasil, além de ser uma das autoras do livro Doenças Crônicas – Saiba como Prevenir!

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Mais fibras para engravidar

Essa conexão apareceu numa pesquisa feita com quase 7 mil americanas e dinamarquesas de 18 a 45 anos. Todas estavam tentando engravidar, sem nenhum tratamento, e responderam a um questionário sobre hábitos alimentares. Ao cruzar os dados, veio a constatação: as mulheres que relataram alto consumo de açúcar ou carboidrato simples, como massa e arroz branco, encararam uma taxa de fecundação menor do que quem ingeria mais fibras e controlava melhor a glicose no sangue.

“Em geral, a carência de fibras revela escolhas menos saudáveis à mesa, com consequente aumento de gordura corporal, e isso interfere na ovulação”, avalia Gabriela Halpern, nutricionista do Fertility — Centro de Fertilização Assistida, em São Paulo. “Com os ciclos irregulares, por sua vez, fica mais difícil engravidar.” Daí a orientação de, antes mesmo de pensar em bebês, já montar um menu com frutas, verduras, legumes e cereais integrais. “Até porque as fibras também ajudam a eliminar toxinas e a deixar o corpo todo funcionando de forma mais adequada”, nota Gabriela.

O elo perdido entre glicose, ovário policístico e fertilidade

Ganho de peso, menstruação irregular e dificuldade de engravidar compõem o perfil clássico da síndrome do ovário policístico. “A resistência à insulina decorrente da gordura abdominal eleva a glicemia e descontrola os hormônios. Com isso, os óvulos não amadurecem para a fecundação”, explica a obstetra Beatriz Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP). Mudanças no estilo de vida e certas medicações ajudam a contornar o quadro. “Adequar dieta e atividade física leva à perda de peso e reorganiza os ciclos”, diz a médica.

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Outubro Rosa: destaques sobre o câncer de mama e a saúde das mulheres

A mensagem original do Outubro Rosa se voltava para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama. E sim: até hoje isso segue muito importante, até porque dados do Instituto Nacional de Câncer estimam 66 280 novos casos só em 2020. Mas, atualmente, esse mês também serve para reforçar medidas que melhoram a vida das mulheres que já sofrem com a doença. Além disso, dá a oportunidade de discutirmos a saúde feminina como um todo.

Em homenagem ao Outubro Rosa 2020, Veja Saúde selecionou notícias dos últimos meses que ajudam as mulheres a lidar melhor com o câncer de mama e com seu bem-estar de maneira integral. Confira:

Estilo de vida e câncer de mama

Conhecer para se proteger da doença

Tratamentos, exames e novas tecnologias

Saúde feminina para além do câncer de mama



Enfermagem a espinha dorsal do cuidado com a saúde

A Organização Mundial da Saúde elegeu 2020 como o ano internacional dos profissionais de enfermagem. A meta é valorizar essa profissão e sua função para o sistema de saúde como todo. E, claro, o podcast Detetives da SAÚDE não ficaria fora dessa. Ouça:

Durante o episódio, você vai conhecer os diferentes papéis dos enfermeiros, tanto dentro como fora do hospital. Engana-se quem pensa que eles não podem indicar exames e remédios…

Uma de nossas convidadas é Ana Maria Chiesa, enfermeira, professora da Universidade de São Paulo e consultora técnica da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A outra é Renata Pietro, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP).

É possível escutar o programa em diversas plataformas. Estamos no Spotify, no Deezer, no Google Podcasts, no Pocket Casts, no Youtube… Não sabe como ouvir nesses ambientes? Clique aqui.

Se preferir, escute pelo Spotify diretamente aqui:

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