Inflamação é um processo natural do corpo e algo mais comum do que gostaríamos. Trata-se de uma resposta fisiológica que pode ser desencadeada em situações de trauma (como cortes, quedas ou a implacável topada no dedo do pé), por algumas doenças ou ainda pela ação de vírus e bactérias. Inchaço, dor, vermelhidão e até febre são alguns dos sintomas desse fenômeno, ativado pelo organismo para convocar os glóbulos brancos e outras células de defesa a entrar em ação e começar o processo de cura.
Nos últimos anos, uma série de estudos vem apontando que uma categoria específica de inflamação pode ser o ponto em comum entre enfermidades como asma, dermatite atópica e rinossinusite crônica com pólipo nasal. Trata-se da inflamação tipo 2.²⁻⁴Assim como os demais tipos, ela é um sistema de defesa do organismo – nesse caso, acionado pela exposição a alérgenos como poluição, fumaça de cigarro e até elementos aparentemente inofensivos, como plantas e pelos de animais domésticos.²⁻⁴ Tal qual outras inflamações, a tipo 2 por si só não é uma doença.
O problema é que, em algumas pessoas, essa resposta do organismo acontece de maneira exagerada, aí sim, provocando enfermidades. Essa reação acentuada libera as chamadas citocinas tipo 2, que causam alterações nas barreiras mucosas do nariz, pulmão e pele e um aumento na produção de anticorpos – especialmente aqueles que provocam a alergia.²⁻⁴
“As doenças alérgicas e a inflamação do tipo 2 estão aumentando exatamente porque nós estamos modificando o nosso estilo de vida. Fatores como poluição, tabagismo e estresse podem também disparar a resposta do tipo 2 a partir das mucosas ou da pele”, afirma Norma Rubini, professora titular de alergia e imunologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e coordenadora da comissão de políticas de saúde da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
Doenças relacionadas à inflamação tipo 2
É comum que os portadores dessa inflamação apresentem duas ou mais enfermidades relacionadas a ela.²⁻⁴A asma, por exemplo, é uma doença crônica associada, na maioria dos casos, à inflamação das vias aéreas, do nariz aos bronquíolos. “Em cerca da metade dos pacientes, observa-se a inflamação tipo 2, caracterizada essencialmente pela ocorrência de alergia respiratória e/ou pelas contagens elevadas de eosinófilos no sangue. Esses glóbulos brancos são biomarcadores da inflamação tipo 2, ou seja, indicam a sua presença”, explica o pneumologista Álvaro Cruz.
Segundo o otorrinolaringologista Fabrizio Romano, a rinossinusite crônica pode ter diversas características e é dividida entre primária e secundária. A secundária tem uma causa específica; já a primária não. “Entre as primárias, dividimos em quando é decorrente de uma inflamação tipo 2 e quando não é. Normalmente, as tipo 2 são mais difíceis de tratar e precisa-se usar medicações, principalmente oscorticosteroides, que são a primeira linha de tratamento”, diz Romano.
Continua após a publicidade
No caso da dermatite atópica, ela se manifesta como um eczema. “Podem aparecer manchas claras ou avermelhadas, ter muita coceira e, com o passar do tempo, a pele vai ficando seca. Nessa doença, há duas heranças genéticas: disfunção da barreira cutânea e a desregulação imunológica da inflamação tipo 2. E descobrimos recentemente que a própria inflamação tipo 2 agrava os problemas de barreira da pele. Por isso é muito importante fazer o diagnóstico e tratar essa inflamação”, diz Norma. “Nos casos mais leves de dermatite atópica, algumas medidas simples, como a hidratação da pele, evitar banhos muito quentes e o uso de roupas de algodão, são suficientes. Mas, quando chega a um estágio moderado, é importante fazer o tratamento medicinal”, alerta a médica.
Meios de controle
A identificação da inflamação tipo 2 pode ser feita por características clínicas ou por exames comumente realizados, como o hemograma. “Normalmente, o diagnóstico era feito considerando aspectos clínicos, se o paciente possuía polipose, asma… Agora, já existem marcadores biológicos que dão mais certeza a respeito desse tipo de inflamação, garantindo melhores resultados nos tratamentos escolhidos”, afirma o otorrinolaringologista.
“O diagnóstico permite fazer tanto a prevenção, investigando os fatores que provocam a doença, quanto o tratamento com medicamentos mais modernos”, explica Norma. Normalmente essas patologias são tratadas com anti-histamínicos, broncodilatadores e corticoides – remédios com uma série de efeitos colaterais, como obesidade, hipertensão, osteoporose e diabetes –, mas agora uma nova classe de medicamentos, os chamados imunobiológicos, promete uma revolução do ponto de vista do tratamento.
“Em vez de bombardear toda a resposta inflamatória do indivíduo com corticoides, os imunobiológicos permitem atuar de forma mais precisa diretamente na inflamação tipo 2”, afirma Norma. Em linhas gerais, eles são prescritos para as formas graves da doença, depois de sucessivas tentativas com os remédios disponíveis e dos diagnósticos clínico e laboratorial. Segundo a médica, estudos comprovam impacto significativo nos sintomas, com diminuição das crises, hospitalizações e, no caso dos pólipos nasais, também das cirurgias.
Na prática, isso significa o controle perene e com mais segurança das doenças – o que, para quem sofre com seus sintomas debilitantes e os tratamentos agressivos que tentam debelar as crises, é uma mudança e tanto. “Estamos falando de melhora na qualidade de vida do paciente”, conclui a médica.
MAT-BR-2001274 – Setembro /2020. Material destinado ao público geral.
Referências:
Cruvinel WM, Mesquita Jr. D, Araújo JAP, Catelan TTT, Souza AWS, Silva NP, Andrade LEC. Sistema Imunitário – Parte I. Fundamentos da imunidade inata com ênfase nos mecanismos moleculares e celulares da resposta inflamatória. 2010. Rev Bras Reumatol.
Gandhi NA, Bennett BL, Graham NM. Targeting key proximal drivers of type 2 inflammation in disease. Nature Reviews Drug Discovery, vol. 15, no. 1, pp. 35-50, 16 October 2016.
Carr s, Chan E, Watson W. Eosinophilic esophagitis. Allergy, Asthma & Clinical Immunology, vol. 14, no. Suppl 1, p. 58, 2018.
Steinke JW, Wilson JM. Aspirinexacerbated respiratory disease: pathophysiological insights and clinical advances. Journal of Asthma and Allergy, vol. 9, pp. 37-43, 2016.
Heffler E et al. J Allergy Clin Immunol Pract, 2018 [E-Pub].
Shaw DE et al. Eur Respir J, 2015; 46:1308-1321.
Maio S et al. Allergy, 2018; 73:683-695.
Simpson E et al. J Am Acad Dermatol, 2016; 74:491-498.
Silverberg JI et al. Ann Allergy Asthma Immunol, 2018; 121:604-612.
Won H, Kim Y, Kang M. Age-related prevalence of chronic rhinosinusitis and nasal polyps and their relationships with asthma onset. Ann Allergy Asthma Immunol, vol. 120, no. 4, pp. 389-394, 2018.
Staniorski CJ et al. Int Forum Allergy Rhinol, 2018; 8:495-503.
Além da quantidade, o tipo de preparo e o ponto da carne fazem crescer o perigo do câncer colorretal. Foi o que constatou uma análise de imagens de colonoscopia, exame que inspeciona o intestino, de mais de 6 300 pessoas. Conduzida na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, a investigação apontou um aumento de lesões precursoras de tumores naquelas que informaram maior consumo de carne vermelha (sobretudo bem passada) ao longo de um ano.
A hipótese é que os danos estejam relacionados a substâncias conhecidas como aminas heterocíclicas. “Elas surgem na carne quando ela é exposta a altas temperaturas”, explica o cirurgião oncológico Samuel Aguiar Junior, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. “O estudo aponta o risco de formação de tumores a partir de pólipos mais raros, as lesões sésseis serrilhadas.
Até então acreditava-se que essa via tinha origem mais hereditária, mas se vê que ela também sofre influência da dieta”, revela. O recado, portanto, é maneirar na carne e optar por receitas feitas em fogo brando e com cozimento mais lento.
Eles se debruçaram sobre dados como nível educacional e socioeconômico, características da vizinhança e taxa de mortalidade na população acima de 75 anos e detectaram que ambientes mais acolhedores e propícios à mobilidade, por exemplo, elevam as chances de ser um centenário.
“O estudo reforça que, muito além dos aspectos genéticos e dos cuidados com a saúde, o contexto socioambiental impacta bastante o envelhecimento. No Brasil, há muito a melhorar nesse sentido”, avalia a médica e colunista de VEJA SAÚDE Maisa Kairalla, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.
<span class="hidden">–</span>Ilustração: Laura Luduvig/SAÚDE é Vital
<span class="hidden">–</span>Ilustração: Laura Luduvig/SAÚDE é Vital
Há dez anos, a vida do arquiteto de sistemas Jacson Fressatto virou de cabeça para baixo. No dia 30 de maio de 2010, ele recebeu uma notícia absolutamente terrível: a morte da pequena Laura, vítima de sepse. Prematura, sua filha não resistiu depois de 18 dias internada na UTI neonatal de um hospital de Curitiba. A primeira reação de Fressatto foi de revolta. Queria porque queria saber o nome do filho da mãe que havia deixado sua filha morrer. Passada a raiva, tomou outra decisão: se dependesse dele, ninguém mais sentiria a dor que estava sentindo naquele momento.
Foi quando vendeu tudo o que tinha (carro, moto e apartamento) e, em 2014, investiu 1,5 milhão de reais do próprio bolso para criar algo pioneiro no planeta: a primeira plataforma de inteligência artificial capaz de gerenciar riscos dentro de um hospital. Em homenagem à filha, batizou o “robô” de Laura. “Eu mesmo banquei todas as despesas operacionais do projeto, com a certeza de que estava no caminho certo. Hoje a gente vê como tudo valeu a pena e quanto pode fazer mais”, diz o fundador e presidente do Instituto Laura Fressatto.
Em seis anos, Laura já chegou a 32 hospitais e ajudou a salvar mais de 24 mil vidas — cerca de dez por dia. O programa de computador analisa, em tempo real, os sinais vitais, o prontuário eletrônico e os resultados de exames, entre outros dados, de todos os pacientes de uma UTI e classifica o risco de cada um deles em baixo, médio ou alto. Se o quadro de uma pessoa internada apresenta piora, a equipe médica é imediatamente acionada.
Conclusão: Laura já reduziu em 25% a taxa de mortalidade por infecção hospitalar nos estabelecimentos atendidos. “Não saberia dizer se, caso uma tecnologia dessas existisse na época, minha filha não teria morrido. Seria leviano afirmar. Ela era uma prematura extrema. Mas, ao menos, teria a certeza de que estaria recebendo o melhor cuidado possível”, reflete Fressatto.
Laura é um dos melhores exemplos do que a inteligência artificial, ou simplesmente IA, pode fazer pela nossa saúde. Esse é um ramo da ciência da computação que busca reproduzir aspectos do poder de aprendizado e resolução da mente humana em máquinas. A meta é desenvolver robôs que, entre outras façanhas, adquirem habilidades, tomam decisões e resolvem problemas como se fossem um de nós — tantas vezes, com uma velocidade e um grau de acerto bem superiores.
Quando falamos em robôs, não estamos nos referindo àqueles modelos androides, típicos dos livros de Isaac Asimov (clique para comprar) ou dos filmes de Ridley Scott. Falamos de programas de computador e algoritmos matemáticos de última geração. “A partir de uma vasta base de dados, você ensina um robô a solucionar um problema específico. E ele pode até observar detalhes que um ser humano deixaria passar”, explica Marcus Figueredo, CEO da Hi-Technologies, empresa que desenvolve dispositivos e sistemas de telemedicina.
Para o engenheiro da computação, duas das principais aplicações da IA na saúde hoje são a interpretação de exames e a apuração de interações perigosas entre remédios. “No primeiro caso, o robô analisa o exame e elabora um pré-diagnóstico para a validação do médico responsável pelo laudo. No segundo, ele tenta descobrir se, quando interagirem uns com os outros, os medicamentos prescritos poderão trazer riscos ao paciente”, destrincha.
A inteligência artificial também é útil na detecção precoce de doenças e na predição de surtos, aponta o cientista da computação Guilherme Kato, diretor de TI do Dr. Consulta, startup que oferece atendimento médico e exames em 59 unidades da Região Sudeste. “Com base no histórico familiar, hábitos alimentares e fatores de risco, podemos avaliar a probabilidade de um paciente desenvolver certa doença no futuro. Da mesma forma, conseguimos usar dados de consultas e exames para prever um surto, ou até mesmo uma epidemia, numa localidade”, esmiúça.
Na visão de Rico Malvar, cientista-chefe da Microsoft Research, o grande objetivo da IA é ajudar os profissionais de saúde a serem mais produtivos e efetivos. Segundo um estudo recente, que monitorou o trabalho de 57 especialistas durante 430 horas, os médicos ficam mais tempo cumprindo tarefas administrativas do que atendendo pacientes. “Enquanto os robôs se encarregam de trabalhos operacionais, como preencher formulários, os profissionais conseguem se dedicar a atividades mais estratégicas”, argumenta Malvar. Isso significaria mais contato com o paciente… e mais vidas salvas.
Máquinas que aprendem com os erros e tomam decisões por conta própria… Nada disso seria possível se não fosse Marvin Lee Minsky (1927-2016), o matemático “pai” da inteligência artificial (IA). Ele criou em 1951 o primeiro computador inteligente da história, um aparelho rudimentar que conseguia executar tarefas para as quais não tinha sido programado.
“A IA é capaz de reconhecer um problema, analisar dados e, em fração de segundos, propor soluções. E isso sem receber instruções diretas de humanos”, resume o médico Luiz Carlos Lobo, professor da Universidade de Brasília. “Minsky enxergou o cérebro como uma máquina cujo funcionamento pode ser estudado e replicado em um computador”, divulgou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de onde o cientista era professor, no dia de sua morte.
Robôs no hospital
Se o robô Laura atua, predominantemente, em UTIs, o Da Vinci dá plantão em centros cirúrgicos. As primeiras versões do robô cirurgião, que ganhou o sobrenome do artista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), chegaram ao Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista, em 2008. Na ocasião, eram dois modelos: um para cirurgia, outro para treinamento. Hoje são três: dois para uso clínico, um para capacitação de médicos, e mais dois simuladores. Cada um deles dispõe de quatro braços mecânicos, um com uma câmera de altíssima definição e capacidade de ampliação da imagem em até dez vezes, e três com instrumentos cirúrgicos, como pinças, tesouras e bisturis, entre outros.
Ao contrário do robô Laura, o Da Vinci não é autônomo. Isto é, não opera nem toma decisões sozinho. Ele precisa de um cirurgião para coordenar seus movimentos por meio de um joystick. Ao longo desses 12 anos, o Sírio-Libanês já realizou mais de 5 mil cirurgias — 60% delas voltadas à retirada da próstata — e treinou mais de 300 profissionais de todo o Brasil e da América Latina. A tendência não veio para ficar à toa: as cirurgias robóticas são consideradas mais precisas e menos invasivas. Com isso, a recuperação do paciente é mais rápida e o tempo de internação, menor. Em compensação, o custo ainda é alto, e o robô não oferece sensação tátil.
“Não é toda cirurgia que precisa do Da Vinci. Indicamos esse recurso naquelas que oferecem realmente vantagens ao paciente. Quando o tumor é de difícil acesso por cirurgia convencional ou laparoscópica, o ideal é que a cirurgia seja robótica”, contextualiza Sérgio Arap, superintendente médico do centro cirúrgico do Sírio-Libanês, onde o primeiro procedimento do tipo foi realizado há 20 anos. Nesse campo em evolução, cientistas já vislumbram a criação de robôs cirurgiões inteligentes, que não substituiriam o médico, claro, mas poderiam ser ainda mais brilhantes com o bisturi.
A exemplo da robótica, a IA também tem lá seus prós e contras. Quando indagado sobre as vantagens dos robôs em relação aos humanos, Figueredo não pensa duas vezes: eles têm uma capacidade de processamento de dados muito maior e não contam com o fator cansaço. “Imagine um radiologista que precisa analisar exames de raios x por oito ou 12 horas por dia. Mais cedo ou mais tarde, ele vai se cansar. Uma máquina é capaz de analisar 10 mil exames consecutivos com a mesma disposição”, compara o CEO da Hi-Technologies.
A questão do cansaço não é trivial aqui. Como em qualquer atividade, quando ficamos cansados, podemos cometer mais erros. E, em medicina, alguns erros podem levar a condutas equivocadas e até mesmo ser fatais. Só que as máquinas também não estão imunes a deslizes… “O que acontece se uma decisão tomada por um algoritmo de IA prejudicar ou, no limite, causar a morte de um paciente? Quem será o responsável: o fabricante ou o programador?”, levanta a lebre o engenheiro Anderson Maciel, consultor do Instituto dos Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE). “Há questões éticas. Questões antigas, é verdade, mas ainda não temos segurança sobre como respondê-las”, admite.
Limites e desafios no horizonte
Apesar dos progressos e do entusiasmo com a tecnologia, outros dilemas se colocam, na avaliação do vice-presidente da área médica da Dasa, Leonardo Vedolin. De acordo com o radiologista, os desafios impostos pelo uso da IA na medicina se dividem em três esferas: técnica, ética e legal. “Parte das atividades médicas, principalmente as burocráticas e repetitivas, será substituída por tecnologias disruptivas. Mas não acredito na substituição por completo do médico. E a principal razão disso é que o ato médico pressupõe a relação médico-paciente. Não dá para substituir esse entrosamento por um robô”, afirma Vedolin.
Outro ponto de preocupação para os especialistas diz respeito à privacidade e à segurança dos dados. Afinal, o risco de vazamento de informações sigilosas, tanto do paciente quanto da instituição, existe. Em agosto de 2014, hackers chineses roubaram os dados de 4,5 milhões de pacientes de 200 hospitais dos Estados Unidos. Entre outras artimanhas, os invasores pedem pequenas fortunas para não divulgá-los ou, então, geram boletos falsos de cobrança.
Segundo Guilherme Kato, do Dr. Consulta, não existem sistemas tecnológicos perfeitos e invulneráveis. “A boa prática diz que devemos, sempre que possível, trabalhar com dados anonimizados, ou seja, que não permitem que o cidadão referente a eles seja identificado lá fora. Assim, caso ocorra um vazamento, pacientes e parceiros serão preservados”, esclarece.
No contato direto com o paciente, uma das principais barreiras para o uso dos robôs é a falta de algo demasiado humano, a empatia. Mas há quem acredite que até isso está com os dias contados. “Muitas vezes, uma boa conversa faz tão bem à saúde quanto comprimidos. Os atuais modelos ainda não têm essa capacidade de interação com as pessoas, mas no futuro terão. Precisamos apenas desenvolver melhor as interfaces para conquistar a confiança do paciente”, raciocina Maciel.
<span class="hidden">–</span>Ilustração: Felipe Mayerle/SAÚDE é Vital
IA contra a Covid-19
Em tempos de pandemia, máquinas inteligentes são mandadas a todo momento para o front na guerra contra a Covid-19. Na Europa, robôs aferem a temperatura e verificam o uso da máscara em quem chega aos hospitais. Do outro lado do mundo, enquanto uns modelos são programados para monitorar o quadro clínico de pacientes, outros ficam responsáveis por desinfetar as enfermarias e esterilizar os instrumentos de centros médicos da China e do Japão. Nos Estados Unidos, algumas instituições estão recorrendo às máquinas para limpeza e desinfecção dos leitos das UTIs com luz ultravioleta, que destrói até 99% dos vírus e das bactérias. Com a estratégia, esses locais ficam mais tempo protegidos e menos trabalhadores são expostos aos patógenos.
Continua após a publicidade
No Brasil, robôs de telepresença, munidos de câmeras e sensores especiais, já substituem os humanos na triagem de pacientes nas emergências, encurtam a distância entre os doentes e seus familiares nas enfermarias e reduzem o número de visitas dos médicos às UTIs. A distância, os profissionais de saúde podem identificar sintomas, transportar remédios e passar instruções, sem se expor à contaminação. Na capital paulista, dois modelos estão encarregados de recolher o lixo nas alas do Hospital das Clínicas destinadas a pacientes com Covid-19. “O objetivo é evitar o risco de contaminação dos mais de 20 funcionários da limpeza e agilizar a liberação dos 300 leitos de UTI”, explica o radiologista Giovanni Guido Cerri, presidente da comissão de inovação do Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior complexo do gênero da América Latina.
Diante desses e de outros exemplos, muitos se perguntam: como será a medicina do futuro? Os hospitais serão quase 100% automatizados? Médicos e enfermeiros cederão seus jalecos e estetoscópios aos robôs, só acompanhando e orientando remotamente? Para o neurorradiologista Edson Amaro Jr., responsável pela área de big data do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, a resposta é “não”.
Assim como a telemedicina veio complementar, e não substituir, o atendimento presencial, a inteligência artificial será uma aliada, e não uma adversária, da inteligência humana. “A interação entre as inteligências artificial e natural, também conhecida como ‘inteligência aumentada’, é o segredo por trás de diagnósticos, prognósticos e tratamentos cada vez mais eficientes e precisos”, afirma o especialista.
Nesse sentido, se engana quem pensa que a popularização de robôs e plataformas de IA vá render uma medicina mais fria e massificada daqui a alguns anos. “O futuro da medicina inclui características aparentemente discrepantes, mas que, na realidade, são totalmente consonantes. O cuidado com o paciente, ao contrário do que muitos pensam, será cada vez mais individual e humanizado”, assegura o cirurgião Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.
Com os avanços tecnológicos, os médicos serão capazes de dizer mais precisamente quando um indivíduo ficará doente antes mesmo de surgirem os primeiros sintomas. Será o axioma “prevenir é melhor do que remediar” levado às últimas consequências. “A IA poderá fazer predições do tipo: se determinado fulano não aumentar em 60% a realização de atividades físicas, a probabilidade de ele desenvolver um problema nos rins é de 30%”, dá um exemplo o consultor do IEEE.
A personalização também ganha pontos com tanta tecnologia. “Do genoma ao ambiente, a IA levará em consideração todos esses fatores na hora de prescrevermos o medicamento ideal para cada paciente. A expectativa é que, no futuro, o tratamento personalizado seja muito mais eficaz que o atual”, acredita Cerri. E esse futuro passa pelo profissional de saúde de carne e osso, que, com indicações e análises mais precisas na palma da mão (ou do celular), poderá ser mais acolhedor e assertivo com o paciente.
Enquanto essas e outras predições não viram realidade nos consultórios e hospitais, Jacson Fressatto segue adiante, decidido a transformar Laura na maior e mais eficiente solução na gestão do cuidado em saúde do mundo. “Vou impactar positivamente a vida de mais de 1 bilhão de vidas”, promete. “Ninguém vai esquecer o nome da minha pequena. Com apenas 18 dias de vida e só 500 gramas, ela já conseguiu mudar a história de milhares de pessoas”, emociona-se.
Soluções baseadas em robótica e inteligência artificial já à disposição dos brasileiros
O que seu rosto diz sobre a sua saúde
O Binah é um aplicativo que consegue estimar desde o nível de oxigênio no sangue até a frequência cardíaca a partir de um único autorretrato. Mágica? Não, tecnologia. Usando IA, ele analisa o formato da bochecha e da testa e, em menos de dois minutos, dá o resultado. A margem de acerto é de 97%. “Até o fim do ano, vamos aferir pressão, temperatura e nível de álcool no sangue”, conta Cláudio Lottenberg, médico e presidente do Instituto Coalizão Saúde.
Anjo da guarda nos hospitais
O robô Laura é uma plataforma de IA que, por meio de análises preditivas, consegue antecipar em até 12 horas o alerta de deterioração de um paciente, possibilitando uma intervenção precoce da equipe da UTI. Laura já salvou mais de 24 mil vidas, baixou em 25% a taxa de mortalidade nos hospitais e reduziu em sete horas o tempo médio de internação, além de gerar uma economia de 5,5 milhões de reais aos centros médicos.
Tosse decifrada
São muitos os sintomas da Covid-19. E a tosse é dos mais comuns. Mas como saber se a tosse seca, ou a com catarro, é decorrente de algo mais grave? Para responder a essa pergunta, a Intel criou um sistema de IA que ajuda a dizer se aquele “cof-cof” tem a ver com o coronavírus. “Por meio do SoundCov, é possível indicar se o paciente está saudável, com Covid-19 ou outras doenças pulmonares”, diz André Ribeiro, diretor de novos negócios da Intel.
Óculos na era digital
Até outro dia, escolher óculos era sinônimo de ir a uma loja e ficar provando vários modelos até eleger o preferido. Complicado em tempos de pandemia. Agora, com o aplicativo Myglasses, você tira uma selfie e, após o escaneamento facial, testa as opções num avatar em 3D do seu rosto. “O usuário só precisará ir à loja tirar as medidas para fazer as lentes”, observa Marcelo Frias, diretor de marketing da Zeiss, que lançou a novidade.
<span class="hidden">–</span>Ilustração: Felipe Mayerle/SAÚDE é Vital
Laboratório de bolso
Já imaginou não precisar mais sair de casa para fazer exame de sangue? Ou, então, coletá-lo em uma farmácia na vizinhança? Com o Hilab, o próprio usuário faz um pequeno furo na ponta do dedo, colhe o sangue, insere a cápsula com a amostra do material no dispositivo conectado à internet e, em alguns minutos, recebe o resultado via SMS ou e-mail. Disponível em farmácias do Brasil inteiro, o Hilab usa IA para acelerar o diagnóstico.
A senha está na cara
A carteirinha do convênio está mesmo com os dias contados. Na Conexa Saúde, a maior plataforma de telemedicina independente do Brasil, o usuário já pode agendar sua consulta através da biometria facial. Basta acessar o aplicativo, enviar uma foto e o número do CPF e, em segundos, o sistema libera o paciente. “A tecnologia vai revolucionar ainda mais a saúde”, diz o engenheiro da computação Daniel Vieira Santos, CTO da Conexa Saúde.
Arma contra o câncer
O Hospital do Amor de Campinas (SP) utiliza uma plataforma de IA no combate ao câncer de mama. É a primeira instituição na América Latina a disponibilizar a tecnologia. Em parceria com o MIT, o projeto procura estabelecer prioridades no atendimento preventivo e, assim, reduzir o impacto causado por diagnósticos tardios. Como não há limite de inserção de casos, todas as pacientes que já realizaram mamografia na unidade serão beneficiadas.
O robô cirurgião
A cirurgia robótica permite realizar procedimentos minimamente invasivos para a retirada da próstata ou redução do estômago. Graças a controladores do tipo joystick, o médico realiza movimentos precisos, evita tremores e atinge locais de difícil acesso. Com alta definição e tecnologia 3D, as imagens podem ser ampliadas em até dez vezes o tamanho original. O robô Da Vinci é o mais famoso no Brasil. Já atende 51 hospitais de dez estados e do Distrito Federal.
Desde que a pandemia começou, em fevereiro de 2020, vários compostos foram avaliados para prevenir ou frear o Sars-CoV-2. Nesse contexto, alguns profissionais especularam se ervas e terapias originárias da China teriam algum papel a cumprir. “Mas não existem evidências de benefícios desses tratamentos contra a Covid-19”, afirma a médica Raquel Stucchi, da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Uma revisão publicada no The Journal of Alternative and Complementary Medicine revelou que apenas dois países incluem a medicina tradicional chinesa como opção terapêutica contra a infecção: a própria China e a Coreia do Sul. Mesmo assim, esses documentos destacam a falta de provas para embasar isso. Portanto, antes de fazer uso de qualquer abordagem do gênero, procure informações confiáveis e converse com um especialista.
Nossa alimentação tem um papel essencial na prevenção de doenças e até mesmo no tratamento delas. Mas o impacto do que comemos vai muito além disso. Pode interferir no equilíbrio do planeta! Você já ouviu falar no termo “dieta sustentável”? Pois faz sentido pensar nele.
Dietas sustentáveis são aquelas com baixo impacto ambiental e que contribuem não só para a qualidade e a segurança nutricional mas também com uma vida saudável para as gerações futuras. Elas obedecem a sete princípios:
1. Preferência de alimentos à base de plantas;
2. Consumo, quando possível, de alimentos orgânicos;
3. Preferência a produtos regionais e sazonais;
4. Preferência a alimentos minimamente processados;
5. Atenção ao valor justo dos alimentos;
6. Economia de recursos e contenção do desperdício de alimentos;
7. Respeito à cultura de cada região.
Pesquisadores afirmam que, para termos alimentos suficientes à nossa população em crescimento e, ao mesmo tempo, preservarmos os recursos naturais do planeta, precisamos de mudanças substanciais no padrão de alimentação. O consumo global de frutas, vegetais, castanhas e legumes terá que dobrar, e a ingestão de carne vermelha e açúcar, por exemplo, terá de ser reduzida em mais de 50%.
As recomendações atuais da Organização Mundial de Saúde (OMS) propõem limitarmos o consumo de carne vermelha a 300 gramas por semana (ou três porções de 100 gramas semanais) e elevarmos o de frutas, verduras e legumes para no mínimo cinco porções ou 400 gramas por dia. Essas medidas reduziriam a emissão de gases do efeito estufa na atmosfera em 29%, o que contribui para a diminuição do aquecimento global. Note que essas mesmas orientações se aplicam à prevenção de doenças como câncer e problemas cardiovasculares.
Nesse contexto, outros padrões alimentares têm sido propostos. A dieta flexitariana, cujo termo foi criado em 1990, assume limites mais rigorosos de ingestão de carne vermelha (uma porção por semana), limita a carne branca (meia porção por dia) e laticínios (só uma porção por dia). As previsões sugerem que, se todos adotassem uma dieta flexitariana, em 2050 a emissão de gases de efeito estufa da agricultura cairia mais de 50% pelo mundo.
No início de 2019, uma comissão de cientistas se reuniu para desenvolver metas globais para dietas e produção sustentável de alimentos, e estabeleceu limites seguros de ingestão alimentar num padrão um pouco mais rígido que o flexitariano. Desse trabalho surgiu a “dieta para a saúde do planeta“, que também limita a ingestão de alimentos de origem animal, fontes de gorduras saturadas (melhor priorizar o que fornece gorduras insaturadas), grãos refinados e produtos altamente processados e com adição de açúcar. A iniciativa também enfatiza uma diminuição do desperdício de alimentos e a otimização da produção.
Vale a pena refletirmos sobre essas propostas. O consumo atual de carne vermelha no Brasil é de, em média, 450 gramas por semana por pessoa — 50% a mais que o recomendado pela OMS e quase cinco vezes maior do que o defendido pelas dietas pró-sustentabilidade. A ingestão média de verduras e legumes, por sua vez, é de 156 gramas diários, bem inferior aos 400 gramas prescritos como quantidade mínima pela OMS.
É claro que a adaptação a um cardápio sustentável pode exigir alterações profundas na rotina. Mas devemos considerar que pequenas mudanças, se mantidas, já vão trazer resultados. Tanto para a sua saúde como para o meio ambiente. Minha sugestão é começar devagar e ir avançando com o que é possível e sem entrar em neura.
Vou dividir aqui alguns conselhos:
Faça dos vegetais os protagonistas do prato, não só o acompanhamento. Procure preencher metade do prato com verduras e legumes, de pelo menos três cores diferentes;
Dê novos sabores à comida de origem vegetal, adicionando ervas, temperos e molhos diferentes a cada preparo;
Pense em receitas diversificadas e não mais do mesmo: vegetais assados, grelhados, em tortas ou omeletes…
Invista no pré-preparo: deixe frutas já higienizadas e picadas na geladeira e as verduras prontas para o consumo. Coloque em um local que fique sempre no seu campo de visão.
Para as frutas que podem ficar fora da geladeira, deixe-as limpinhas e numa área da cozinha de grande circulação. Assim a família curte uma maçã (ou pera, ou banana…) em vez de uma guloseima.
O que é o Setembro Amarelo e qual o objetivo dessa campanha
A campanha Setembro Amarelo surgiu no Brasil em 2014, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, para conscientizar a população sobre os fatores de risco relacionados ao comportamento suicida e reforçar a importância de buscar o tratamento adequado.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 800 000 pessoas no mundo se suicidam a cada ano. Destas aproximadamente 97% tinham transtornos mentais, principalmente a depressão. No Brasil ocorrem 11 000 mortes por suicídio anualmente.
Assim como todas as outras doenças – sim, a depressão é uma doença –, não adianta ter pensamento positivo ou acreditar que o tempo cura. É preciso buscar ajuda especializada com psiquiatra e psicólogo.
Quais são os principais sintomas da depressão
No início, os sentimentos ruins vão e voltam; momentos bons até aparecem, mas os dias ruins prevalecem. Às vezes, falta prazer naquela atividade que antes era divertida. O sono fica instável: algumas pessoas passam noites em claro, outras dormem demais. Quase sempre, faltam disposição, motivação e energia. Segundo os manuais médicos, a depressão tem uma extensa lista de sintomas, que inclui tristeza, ansiedade ou sensação de “vazio”, pessimismo, culpa, irritabilidade, inutilidade ou desamparo, dificuldade para se concentrar, lembrar ou tomar decisões, problemas ou disfunções sexuais, alterações de apetite que podem levar ao ganho ou à perda de peso, dores no corpo e de cabeça e, em casos mais graves, pensamentos de morte ou suicídio.
Como ajudar quem tem depressão
O acolhimento é um passo fundamental para que quem tem depressão busque ajuda profissional. Isso significa construir um ambiente seguro, que permita à pessoa se abrir, desabafar e se sentir encorajada a procurar diagnóstico especializado. Para oferecer um apoio realmente eficaz, é importante repensar a forma como falamos sobre a depressão e o suicídio. Desconstruir crenças e derrubar tabus em torno da saúde mental é essencial para que a pessoa se sinta amparada e compreendida.
O caminho para a criação de uma sociedade mais acolhedora passa, primeiro, pela informação. Pensando nisso, a Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, lidera o Movimento Falar Inspira Vida. Trata-se de uma coalizão, formada por diversas instituições que defendem as causas da saúde mental no Brasil, que elaborou um guia prático que ilustra, por meio de situações vivenciadas no dia a dia, maneiras mais acolhedoras para dialogar com pessoas que podem estar enfrentando a doença.