sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Por que o coronavírus pode fazer o cabelo cair?

Para muitas pessoas que se infectam com o novo coronavírus (Sars-CoV-2), o sumiço do agente infeccioso da circulação não representa necessariamente o fim dos problemas. Vários sintomas podem persistir ou até mesmo dar as caras após a recuperação da Covid-19. Um deles é a perda de cabelo.

Essa queixa apareceu em um levantamento americano conduzido pela Escola de Medicina da Universidade Indiana e pela Survivor Corps, um grupo de sobreviventes do Covid-19 que busca aumentar a compreensão sobre a doença e impedir a disseminação do vírus. Cerca de 1 500 pacientes que sofreram com sintomas por semanas e até meses participaram da investigação.

“Um estudo recente do CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças] identificou 17 sintomas persistentes da Covid-19, mas nossos participantes reportaram 98 de longo prazo”, comentou a professora de Medicina Natalie Lambert, uma das responsáveis pelo levantamento, em comunicado à imprensa. Ela informou que surgiram relatos de dor nos nervos, dificuldade de concentração e para dormir, visão embaçada e… queda de cabelo.

A médica Ana Carina Junqueira, tricologista à frente do IBEMC – Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisa em Medicina Capilar, conta que a perda dos fios atinge aproximadamente um terço dos indivíduos que receberam o diagnóstico de Covid-19. “E ela tem ocorrido após quadros graves, leves ou mesmo assintomáticos”, revela.

Continua após a publicidade

Quem também tem percebido esse impacto no dia a dia é a dermatologista Leila Bloch, de São Paulo: “Trata-se de uma queda acentuada, similar à observada em outras viroses, como zika e chikungunya”.

Possíveis explicações

De acordo com Ana Carina, a hipótese mais aceita até o momento é que a infecção pelo novo coronavírus desencadeia um distúrbio chamado eflúvio telógeno, no qual os fios que estão crescendo passam para a fase da queda precocemente.

“Ele pode acontecer por vários motivos, entre eles infecções e estresse psicológico”, aponta a médica do IBEMC. Ou seja, dois fatores presentes na vida de quem contraiu a Covid-19. O resultado é uma espécie de colapso no organismo, capaz de culminar na alteração do ciclo capilar.

Leila nota ainda que, quanto mais intensa a febre apresentada pelo paciente, pior para as madeixas. Nesse contexto, há aumento na liberação de algumas substâncias ligadas à inflamação. “Isso faz o cabelo cair”, explica Leila Bloch, que também é autora do livro Fio a Fio (clique aqui para comprar).

Continua após a publicidade

Ela não descarta também a possibilidade alguns medicamentos utilizados no tratamento da Covid-19 contribuírem para a queda. Novos estudos, já em andamento, devem ajudar a elucidar o quadro.

Quem sofre mais com a queda de cabelo: homem ou mulher?

Ainda não dá para cravar em qual sexo a queda é mais intensa. “Devemos considerar que o impacto psicológico da queda costuma ser maior entre as mulheres”, analisa Ana Carina. “E elas geralmente têm fios mais compridos. Por isso, notam com mais facilidade quando estão caindo em excesso”, acrescenta.

Tem solução para esse sintoma do coronavírus?

Em primeiro lugar, é importante frisar que o tal eflúvio telógeno é temporário – só que é preciso ter paciência. “O fio é recuperado, mas com um atraso de três a seis meses”, avisa Leila.

Enquanto isso, nada de relaxar na lavagem do cabelo – por mais que ele caía durante a limpeza. “A orientação é lavar todo dia e usar xampu de controle de oleosidade. Assim, há diminuição da inflamação do couro cabeludo”, ensina a dermatologista.

Continua após a publicidade

Leila ressalta ainda que muitos pacientes que tiveram a Covid-19 citam uma sensibilidade aumentada no couro cabeludo, conhecida como tricodínia. “E há xampus específicos para esses casos”, nota.

Por essas e outras, ao perceber alterações nos fios, o ideal mesmo é buscar um especialista no assunto. Além de indicar as melhores práticas, Ana Carina diz que ele vai se certificar de que não há outra disfunção capilar envolvida ou qualquer fator capaz de agravar esse distúrbio do ciclo. Assim, evita-se uma queda maior e mais duradoura.

“E há tratamentos para ajudar o cabelo a crescer mais rápido. Podemos indicar loções, xampus, vitaminas, nutracêuticos e até medicamentos”, acrescenta Leila.



quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Restrição de calorias induz alterações benéficas no DNA de mulheres obesas

Estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e da Espanha mostrou que a adoção de uma dieta com restrição de calorias pode, além de reduzir o peso, induzir modificações bioquímicas no DNA de mulheres com obesidade. Essas alterações, por sua vez, reverteriam a propensão a certos tipos de câncer. Os resultados foram publicados no European Journal of Clinical Nutrition.

O trabalho integra um projeto financiado pela Fapesp cujo objetivo é avaliar, em pacientes obesas submetidas a diferentes intervenções terapêuticas – cirurgia bariátrica, cirurgia bariátrica seguida de exercícios físicos ou dieta –, o padrão de metilação do DNA. O que isso significa? É um processo bioquímico complexo, mas que, em resumo, pode alterar o funcionamento de alguns genes. Determinados padrões de metilação do DNA favoreceriam ou inibiriam o desenvolvimento de doenças, por exemplo.

“O estudo mostra que indivíduos com e sem obesidade têm um perfil diferente de metilação do DNA em alguns genes específicos e que isso pode ser modicado com a perda de peso”, explica Carolina Nicoletti, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), uma das autoras do trabalho.

“O aumento da prevalência e incidência de obesidade e comorbidades relacionadas é um dos principais problemas de saúde pública na atualidade. A melhor compreensão das interações entre estilo de vida, meio ambiente e genética é fundamental para o desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e tratamento”, diz Carla Barbosa Nonino, que supervisionou a investigação. Ela é coordenadora do projeto e do Laboratório de Estudos em Nutrigenômica (LEN) da FMRP-USP.

Continua após a publicidade

Nesse estudo, foram avaliadas 11 voluntárias com obesidade e idades entre 21 e 50 anos. Elas tiveram amostras de sangue coletadas antes e depois de uma intervenção dietética de seis semanas. As pacientes ficaram internadas durante todo o período na Unidade Metabólica do Hospital das Clínicas da FMRP-USP, onde receberam uma dieta de 1 800 e 1 500 calorias diárias no primeiro e segundo dia, respectivamente, e de 1 200 quilocalorias por dia no restante do período. É uma restrição considerável.

As pacientes tiveram acompanhamento de uma equipe de médicos, enfermeiras e nutricionistas, que garantiram a adesão à dieta. Além disso, foram estimuladas a não alterar os níveis diários de atividade física que mantinham antes da intervenção.

Após as seis semanas de intervenção, as voluntárias tiveram uma perda de peso de 1,8%, equivalente a mais ou menos um quilo por semana. “Quando se trata de uma pessoa de 150 quilos que precisa perder 50, a mudança não vai acontecer em dois meses, mas provavelmente durante o ano inteiro”, ressalta Carolina.

 

Continua após a publicidade

Possível redução no risco de câncer

Ao comparar o tal padrão de metilação do DNA das mulheres com obesidade antes e depois da intervenção, os cientistas observaram que genes como SULF2, GAL e SNORD2, envolvidos em alguns tipos de tumores (como de mama e colorretal), estavam 35% menos ativos após a intervenção.

“Encontramos muitos genes envolvidos na sobrevivência da célula, os chamados pro-oncogenes, relacionados ao desenvolvimento de câncer. Eles estavam menos metilados nos obesos, o que significa que têm uma expressão maior, favorecendo a formação de tumores”, aponta Carolina. “Mas a modificação ocorrida após a intervenção dietética sugere a diminuição dos riscos da ocorrência de câncer nessas pessoas”, arremata.

As pesquisadoras ressaltam que, apesar da melhora, a intervenção não igualou o padrão de metilação das mulheres obesas com a de voluntárias do grupo controle, que não tinham obesidade. No entanto, elas acreditam que a continuidade no emagrecimento poderia levar a isso.

Este conteúdo foi publicado originalmente pela Agência Fapesp.

Continua após a publicidade

 

Continua após a publicidade


Precisamos capacitar profissionais no atendimento a quem enfrenta o câncer

É cada vez mais comum lembrarmos de alguma história marcante, ou mesmo de um conhecido ou familiar, com o difícil diagnóstico de câncer. Isso porque a população está envelhecendo e vivendo mais, e o câncer se torna uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo.

O conhecimento e progresso da oncologia, a ciência que estuda os tumores, crescem rapidamente ano após ano, se tornando uma especialidade que integra profissionais de diversas áreas da saúde. A complexidade que esse grupo de doenças apresenta exige constante atualização para ser adequadamente tratada. O olhar especial que cada paciente merece passa por acolhimento e por particularidades do seu problema — assim como existem peculiaridades no atendimento a vítimas de infarto, derrame ou demência.

O paciente com câncer é e será frequente em qualquer hospital, do pronto-socorro até a unidade de terapia intensiva (UTI). Seja em decorrência de efeitos colaterais provocados pelos tratamentos, seja por um sangramento intestinal repetitivo ou pela perda de peso significativa e não intencional… Alguns desses sinais, é bom lembrar, são a primeira manifestação de um tumor maligno e podem ser identificados de forma eficaz por uma equipe bem treinada, antes mesmo de o indivíduo chegar ao consultório do oncologista. Isso evita inclusive um diagnóstico tardio e aumenta as chances de cura.

A maioria dos pacientes com câncer, em algum momento durante o curso da doença, passa pelo pronto-atendimento. Pode ser antes mesmo do diagnóstico ou devido a uma intercorrência durante o tratamento. Uma educação continuada prepara os profissionais para suspeitar de um tumor ainda não diagnosticado e encaminhar o paciente a exames e, se necessário, ao especialista. E também os instrui a lidar com alguém que já está com o quadro confirmado.

Continua após a publicidade

Todas essas questões são contempladas na segunda Jornada de Urgências e Emergências Oncológicas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, que já conta com mais de 600 participantes. Devido à pandemia de Covid-19, este ano o evento acontece em formato online durante todo o mês de agosto. Em aula inaugural e gratuita, a experiência do hospital no tratamento da Covid-19 foi tema de mesa-redonda com diversos profissionais e experts em telemedicina.

Os palestrantes convidados abordam os principais temas e desafios em emergências oncológicas através de casos clínicos com votação interativa pela audiência. O caráter multiprofissional é uma prioridade, com tópicos envolvendo do manejo de toxicidade em imunoterapia, controle de dor, náuseas e vômitos à abordagem do paciente idoso com câncer. A ideia é municiar os profissionais com conceitos e propostas capazes de salvar vidas.

A troca de experiências e a capacitação de médicos, enfermeiros, entre outros, são determinantes para criar um ambiente devidamente preparado ao atendimento do paciente com câncer, não importa onde ele estiver.

* Dr. Cheng Tzu Yen, Dra. Eliza Dalsasso Ricardo e Dra. Taciana Sousa Mutão são médicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo



O luto na pandemia

A gente acompanha contagens de mortos quase diariamente, mas discute muito pouco o luto de quem ficou. Isso sem contar que a crise do coronavírus desperta uma espécie de luto coletivo na comunidade. Neste episódio do podcast Detetives da SAÚDE, a gente quer tirar o tapete da sala e falar sobre como é o luto em um momento como o atual, onde os ritos fúnebres exigem adaptações, o contato físico fica pra lá de limitado e por aí vai. E, claro, como lidar com a pessoa enlutada sem ser frio ou, por outro lado, invasivo. Ouça:

Uma das nossas convidadas é a psicóloga Daniela Achette, do comitê de psicologia da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. “Na pandemia, há um sofrimento em comum. Isso pode gerar empatia com o luto do outro, mas também aumenta o risco de o enlutado ser visto só como ‘mais um'”, afirma.

A jornalista Juliana Dantas, criadora do podcast Finitude (que fala sobre o fim da vida), também participa do episódio. Entre outras coisas, ela destaca a necessidade de garantirmos a dignidade da pessoa que morreu e a do enlutado, principalmente durante a pandemia de Covid-19. E aborda iniciativas que têm ajudado as pessoas a lidarem com o luto, como o Festival inFINITO 2020, que discute depressão, suicídio, cuidados paliativos, morte etc

Continua após a publicidade

Você pode escutar o programa em diversas plataformas. Estamos no Spotify, no Deezer, no Google Podcasts, no Pocket Casts, no Youtube… Não sabe como ouvir nesses ambientes? Clique aqui.

Se preferir, dá para escutar pelo Spotify diretamente por aqui:

Ou pelo Youtube:

Continua após a publicidade


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Faça uma pausa hoje para não pifar amanhã

Será que o tempo anda passando mais depressa? A questão, que já atormentou físicos, filósofos e muitos outros mortais, foi o ponto de partida da jornalista Izabella Camargo para discutir nossa relação com as horas, os minutos e os segundos — relação profundamente afetada pela era digital. Para essa autêntica DR, ela entrevistou pessoas das mais diversas áreas do conhecimento e mesclou um conjunto de reflexões e vivências com seus próprios aprendizados diante da síndrome do burnout.

O resultado está nas páginas (ou na tela) do seu primeiro livro, Dá um Tempo!, recém-lançado pelo selo Principium da Editora Globo (clique aqui para ver e comprar). Foram quatro anos de pesquisas e conversas, com um burnout no meio do caminho e uma pandemia no desfecho da jornada. Izabella dá voz a historiadores, filósofos, psicólogos, médicos, físicos, executivos, artistas e religiosos. O panteão de impressões, pensatas e conselhos abriga desde Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal até Fernanda Montenegro e Frei Betto.

A jornalista vai das angústias compartilhadas pelo dramaturgo romano Plauto, do século 3 antes de Cristo, à visão sobre o momento do presidente do Google no Brasil. E não deixa de contemplar e problematizar as consequências de uma rotina acelerada e marcada pela corrida contra o relógio — cujo saldo pode envolver ansiedade, depressão, entre outras mazelas à saúde.

Nesta entrevista, Izabella revela o caminho de construção do livro, reflete sobre nossa percepção e aflição diante do tempo, avalia os efeitos da tecnologia, do trabalho e da Covid-19 nesse contexto e nos convida a desacelerar e pausar um pouco hoje para não pifar amanhã.

VEJA SAÚDE: O processo de elaboração do livro parte de uma inquietação sua e de tantas outras pessoas, passa por um burnout e se consolida em meio a uma pandemia. Como foi essa história?

Foram quatro anos de pesquisa, mais vivências e muitos imprevistos, com um epílogo que eu só tive tempo de escrever por causa da pandemia. Quando tive a intenção de escrever esse livro lá em 2017, o objetivo era juntar um punhado de informações para responder à pergunta: será que o tempo está passando mais depressa ou não? Eu ouvia muito essa pergunta e, naquela época, saíram algumas notícias e teorias meio confusas que me fizeram buscar respostas para saber se o tempo natural estava passando mais rápido ou nós que estávamos passando mais rápido pelo tempo. Eu comecei esse percurso ouvindo físicos e cosmólogos, mas, percebendo também que as pessoas andavam cada vez mais estressadas e doentes por causa disso, tive a ideia de expandir, escutar outros especialistas e abordar outras visões e aspectos sobre o tempo.

Porque a gente fala do tempo o tempo inteiro, mas não para pra pensar nisso e no nosso tempo de verdade. Só para pra pensar a respeito quanto tem uma perda, é dispensado do trabalho ou precisa de um pedido de licença médica. Só quando seu tempo é subtraído violentamente que você para pra pensar nele. Com isso em mente, minha ideia foi propor uma reflexão para as pessoas não adoecerem nestes tempos mais velozes. Nesses quatro anos, além de eu ter entrevistado pessoas fantásticas, também vivi na pele o burnout, que, como a própria história mostra, não é um problema novo, mas que aumentou muito nos últimos tempos.

Foi assim que me senti confortável e segura para expor conhecimentos dos quais fui só um instrumento e trazer junto a eles a minha experiência. Então posso falar: se a gente não fizer uma pausa voluntária em nossa rotina, terá que fazer uma pausa involuntária depois.

Mas dá pra pausar em tempos tão acelerados? Como seu conflito com o tempo e o burnout impactou o livro?

Continua após a publicidade

Para manter o ritmo e a mesma velocidade, temos que pisar no freio e desacelerar de vez em quando. Eu recorro muito à figura do carro para falar de como encontrar limite num mundo sem limites. Nas autoestradas, mesmo que permitam que a gente ande em alta velocidade, há um limite para manter a segurança dos motoristas. O problema não é ser veloz, mas não saber pisar no freio quando preciso e desrespeitar os limites de velocidade.

É a mesma coisa na nossa vida. Mas o fato é que a gente tem uma grande ganância por querer fazer tudo, aproveitar todas as opções, entrar em todos os sites, fazer todos os cursos… Isso se mostrou inclusive na pandemia. A gente não quer perder nada. Só que, para você se colocar na sua agenda, vai ter de abrir mão de muitas coisas.

Em 2018, já com o contrato do livro assinado e tendo feito diversas entrevistas, recebi o diagnóstico de burnout. O curioso é que eu não vi o burnout chegar até mim mesmo tendo conversado com tantos especialistas, inclusive sobre o excesso de estresse ligado ao trabalho. Isso mostra que nem sempre a informação muda o comportamento. Por mais que eu ouvisse que a sobrecarga podia trazer doenças, eu achava que nas próximas férias me recuperaria.

Nesses quatro anos, aprendi muito com os outros e comigo. E aprendi que a gente precisa ter mais consciência da recuperação do corpo diante desses excessos. Quando se trabalha muito vive-se na expectativa de que o tempo de descanso vai chegar. Mas e se esse tempo não chega? Por quanto tempo você consegue ficar saudável nesse ritmo?

No livro não entro em detalhes da minha história com o burnout porque ela ficou pequena diante desse universo. Estamos falando, segundo uma última pesquisa da USP, de 20 milhões de brasileiros com o problema. É quase duas vezes a população de Portugal. Mas no livro trago o que aprendi com o burnout, com o respaldo de especialistas e dados de instituições.

Tudo isso me permitiu falar sobre um dos novos problemas que esses novos tempos vêm causando, embora a gente saiba que existam outras consequências como ansiedade e depressão. Mas o principal é poder falar e dar conselhos úteis sobre prevenção e preservação da vida, uma vida que a gente está tentando encaixar numa agenda de 24 horas pensando que ela pode ser esticada.

No livro você traz também a vivência de pessoas que lidaram das formas mais diferentes (e às vezes difíceis) com o tempo, o que nos remete àquela noção de que o tempo é relativo. Acha que ele tem passado mais depressa para quase todo mundo hoje? 

Não. Tem gente que sente o tempo passar mais devagar. Quem? Pessoas em filas, na fila do banco, do banheiro ou de um transplante, como mostra uma história emocionante que trago no livro. Tem gente que se aposenta e não se prepara para esse tempo livre que nunca viveu. E essas pessoas podem até desenvolver ansiedade ou depressão por se sentirem inúteis depois de tantos anos trabalhando tanto. Para elas, o tempo parece passar mais devagar.

Agora, tem gente no meio do caminho. Algumas horas passam mais devagar, outras mais depressa. Mas esse não é o tempo da natureza. O tempo que a gente conta, o do relógio e o do calendário, é um tempo mecânico construído sob diversos interesses e em cima desse tempo da natureza, que não muda.

Continua após a publicidade

Quando eu vejo um dramaturgo chamado Plauto reclamando do tempo e do relógio de sol há três séculos antes de Cristo, isso me proporcionou um salto, um estado de eureca. Desde os tempos dos relógios de sol as pessoas já tinham a percepção de que o tempo estava passando mais rápido.

O que aconteceu de lá pra cá? Muitas mudanças, cada vez mais rápidas, e que agora ocorrem na velocidade da internet, não mais na das pernas das pessoas ou dos cavalos, os meios de compartilhar as mensagens lá atrás. Quando estudamos a evolução na comunicação e nos transportes, começamos a entender por que estamos onde estamos hoje, com essa percepção de que o tempo anda passando mais depressa.

Existem vários aspectos que abordo no livro mostrando que é você que vai determinar o ritmo de passagem do tempo. É você que estabelece sua agenda e seus compromissos. Antes a informação chegava pela TV, pelos jornais e pelas revistas em um tempo pré-definido. Hoje você não tem mais hora para receber a informação, pode receber a hora que quiser, do jeito que quiser.

Uma das razões para essa sensação de o tempo estar passando mais rápido é justamente esse preenchimento alucinado de agenda. A gente passa de uma informação a outra, de uma atividade a outra, em um ritmo mais acelerado e superficial. Nosso cérebro é recrutado mas não direciona atenção nem forma memória com esse fluxo. E a gente só se lembra de coisas e de dias importantes quando se tem a memória deles.

A tecnologia e a vida hiperconectada não estariam saturando nosso tempo e nossa rotina?

A gente vive num mundo express. A gente quer tudo o mais rápido possível e isso alimenta uma ansiedade maluca. Vivemos num mundo digital com um cérebro analógico, de ritmo próprio. Eu não consigo acelerar meu processamento interno de dados. Nós convivemos com upgrades cada vez mais velozes, que deixam as máquinas mais rápidas, mas o corpo humano tem de manter seu ritmo, pelo menos por enquanto.

Mas o ponto aqui é que estamos sendo cobrados por contratos de tempos que não assinamos. Veja, existem contratos de tempos sociais, como o horário do banco, que fecha às quatro da tarde. Mas, se eu te enviar uma mensagem e te cobrar uma resposta dentro do meu tempo, estou criando uma situação incoerente, afinal, você tem suas coisas pra fazer. Daí que a gente vai entrando no funil de urgência das pessoas e passa a ser cobrada por contratos que não assinou.

Como eu resolvo isso? Colocando limites. Frei Betto deixa em seus e-mails uma resposta automática agradecendo pela mensagem, dizendo que irá responder em breve, mas lembrando que não está todo o tempo na frente do computador, que ele preza por outros afazeres. O padre Fábio de Melo fala no livro que, para se recuperar das crises de pânico, começou também a dizer “não” para algumas oportunidades que surgiam. Ele diz: “Só eu sei o custo de um compromisso na minha agenda”.

Então, em meio a essa oferta e a esse excesso de acessos, conteúdos e atividades, se a gente disser “sim” para todo mundo e responder a todas as demandas na velocidade que os outros esperam, quem vai pagar o preço com problemas de saúde somos nós. Não tem uma regra ou manual, mas cada um precisa encontrar seu limite.

Continua após a publicidade
<span class="hidden">–</span>Fonte: Editora Globo/Divulgação

No livro você entrevista Fábio Coelho, líder do Google no Brasil, e ele compara uma mudança de postura e consumo diante da tecnologia à reeducação alimentar. Nossa sociedade já está despertando para um uso mais equilibrado da internet?

A internet não é uma vilã, assim como a TV não era vilã há algum tempo. Mas na mesma mãozinha que não para de mexer no controle remoto tem aquele dedinho que desliza por feeds infinitos. Quando você vê, passou uma hora com o celular na mão e não absorveu nada. E, sim, vai sentir que o tempo está passando mais rápido.

Nesse sentido, os excessos com a internet são parecidos com os alimentares. Então, se no fim de semana eu me excedi na pizza, depende de mim reduzir o carboidrato nos próximos dias. Se hoje fiquei tempo demais na internet, posso maneirar nesse uso amanhã. Vejo muitos pais fazendo isso com as crianças ao limitar o tempo de tela delas. Mas me pergunto: eles também estão se colocando limites?

A solução não passa por extremos. Não estou falando para deixar de usar a internet nem para não comer mais pizza. Se você passar muito tempo na frente do celular e do computador e não tiver nenhum mal-estar físico ou mental, tudo bem, eu me retiro da conversa. Mas quem quer ficar no wi-fi inifinto precisa ter a noção de que isso tem um custo. No excesso de alimentos, o custo vem na forma de gordura. Na internet, vem na forma de esgotamento e de outros problemas de saúde.

A questão está muito mais no nosso autocontrole do que na tecnologia em si. Paracelso já dizia que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

O conceito do profissional multitarefas ascendeu nos últimos anos, mas, ao que tudo indica, parece uma ilusão também, não?

Sim, temos várias crenças a revisar. Pense naquelas frases como “devagar se vai longe” ou “o apressado come cru”. Elas nos lembram que a velocidade pode ser sinônimo de progresso, mas a pressa, não. Lembram que, se eu aumentar a temperatura do forno, o bolo vai sair cru por dentro e queimado por fora. Ora, o que é o burnout senão uma pessoa que queima mas está crua por dentro, desnutrida dela própria?

O multitarefa é uma dessas crenças. Você até pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, desde que uma seja mais manual e a outra, cognitiva. Mesmo assim, talvez não faça ambas com a mesma excelência ou eficiência. Posso estar lavando uma louça e conversando com você, mas o prato pode ficar mal lavado. Imagine fazer várias tarefas cognitivas ao mesmo tempo. Imagine eu conversando com você aqui e desviando minha atenção para responder um e-mail. Vou me perder no raciocínio. A gente vem alimentando essa ilusão de que consegue responder e-mail, falar no telefone e fazer outras coisas simultaneamente e é evidente que não vai ter um resultado equilibrado. Você perde energia, tempo e saúde nesse processo.

O psiquiatra Daniel de Barros, que entrevistei para o livro, usa a analogia de um quarto escuro com uma lanterna num canto. Esse farol pode levar uma luz para um pedaço, mas não vai iluminar todos os cantos. Assim é com a nossa atenção. E isso me remete ao conceito de delusão citado pela Monja Coen, que é a gente acreditar numa coisa mesmo sabendo que ela é uma ilusão.

Continua após a publicidade

Como a pandemia e o isolamento embananaram ainda mais nossa relação com o tempo?

Só o tempo vai trazer respostas mais consolidadas, mas as observações, as pesquisas e os números atuais já apontam para algumas coisas. A Covid vem validar — infelizmente, claro — aquela noção que trabalho no livro inteiro: a de que precisamos fazer pausas. No momento, precisamos fazer uma pausa voluntária dentro de uma pausa involuntária. Ou eu piso no freio quando preciso ou terei uma multa ou um acidente depois.

Na pandemia, as pessoas que fizeram uma pausa voluntária, revisaram sua agenda e seus hábitos e se organizaram estão saindo melhor do isolamento. Quem não fez isso se sai pior, com ansiedade e depressão, como os estudos já indicam. A Covid veio mostrar que às vezes temos de fazer uma pausa independente do que está rolando lá fora. E é irônico pensar que muita gente passou a reclamar de algo que sempre pedia: mais tempo em casa e com a família.

Com o controle da pandemia, precisaremos fazer mais pausas voluntárias para evitar pausas involuntárias, como um possível adoecimento. Se você não parar pra prestar atenção aos sintomas e avisos do seu corpo, não adianta reclamar depois. Foi o que aconteceu comigo no burnout.

Quem ignora esses sinais e as pausas que o organismo requer vai ficar com o corpo ou a mente doente?

Não sei quem foi que dividiu a saúde física da mental. Uma coisa não se separa da outra. Mas, sim, abusar desse limite, colocar mais compromissos na agenda do que podemos suportar, tem um custo chamado problema de saúde. Pela minha história e a de tantas pessoas que passaram pela minha vida desde então, fica claro que o corpo vai dando sinais até uma hora que o cérebro fala: agora deu!

E o sono é um bom parâmetro aqui. Muita gente ainda tem a crença de que dormir é perda de tempo. O sono é a primeira coisa que se subtrai para maximizar a agenda. É verdade que tem gente que precisa dormir menos para pegar o transporte público e chegar até o trabalho. Sim, temos realidades cruéis também. Mas o pior cenário é a pessoa dormir menos pensando em produzir mais. Quem dorme menos de seis horas por noite corre maior risco de ter dezenas de doenças, de morrer mais cedo…

No livro você dá várias conotações ao “dar um tempo”. Pode ser mais tempo para si, para ficar com quem a gente ama, para se dedicar a algo prazeroso, para não fazer nada… Qual é o sentido mais urgente hoje?

Eu diria que é se dar um tempo para respirar, silenciar e não fazer nada. Quando entrevistei o psiquiatra forense Guido Palomba a respeito do burnout, eu perguntei: o que a gente faz para preservar a saúde? Ele respondeu: “não faz nada”. Como assim? Pois é, precisamos ter no dia a dia pequenos momentos sem fazer nada e, aos finais de semana, grandes momentos sem fazer nada. Só que hoje a gente desaprendeu a ficar sem fazer nada.

Continua após a publicidade

Isso tem a ver com aquele aforismo atribuído a Benjamin Franklin: “tempo é dinheiro”. Mas a gente precisa desenvolver sabedoria para definir quando o tempo é, de fato, dinheiro. Precisamos pensar num ponto de equilíbrio na rotina, na chamada produtividade sustentável. Não adianta você ser o funcionário do mês hoje e ser afastado mês que vem.

A minha recomendação é que você pare, nem que seja um minuto, para não fazer nada. Fique em silêncio e preste atenção só na sua respiração. Sem celular por perto. Não estou falando de meditação, que pode soar como mais uma tarefa a cumprir.

O tempo é o intervalo entre a inspiração e a expiração. Se você corre demais, fica ofegante e passa mais rápido pelo tempo. Então o que eu proponho é: pare pra pensar se o que você faz com o tempo faz sentido a você. Se traz mais satisfação do que insatisfação. Falar de tempo é também falar de escolhas.

Depois dessa jornada toda, você aprendeu a se dar um tempo?

Hoje eu consigo reconhecer meus limites. Não abro mão das minhas horas de sono, a não ser que seja por algo extraordinário, como um show da Tina Turner. E aprendi que, se eu excedi hoje, vou ter de aliviar amanhã. A mesma lógica da pizza no fim de semana se aplica aos compromissos, ao trabalho… O psiquiatra Orestes Forlenza, especialista em Alzheimer, fala no livro que a percepção do tempo passando mais rápido tem a ver com as pausas que a gente não faz.

Também aprendi muito a dizer “não”. Há um “treino do não” que trago no livro. Às vezes, a gente tem de dizer: “adorei o convite, mas fica para uma próxima”. O “não” pode ser muito positivo e preventivo.



terça-feira, 25 de agosto de 2020

Quem já pegou coronavírus se beneficiaria de uma eventual vacina?

Os leitores que nos enviaram a Boa Pergunta de hoje já estão de olho no futuro. Aos montes, eles questionam: quando a vacina para o coronavírus (Sars-CoV-2) estiver disponível, os milhões de brasileiros que tiveram a doença deverão tomá-la?

Ainda não existe uma resposta exata. Mas tudo indica que eles poderão, sim, beneficiar-se da dose — se estiverem dentro do público-alvo de uma campanha de vacinação, como falaremos mais adiante. “Temos várias doenças que não conferem imunidade permanente, e esse pode ser o caso da Covid-19”, comenta Juarez Cunha, infectologista e presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Ou seja, o corpo até ficaria um tempo protegido, mas, com o passar do tempo, suas defesas se perderiam, o que justificaria a vacinação. Entretanto, no contexto do Sars-CoV-2, não sabemos por quanto tempo a imunidade decorrente da infecção duraria, nem qual a validade do efeito de uma vacina.

Outa incógnita que interfere com essa questão é a potência da imunidade promovida pelo contato com o coronavírus em si. “Não temos elementos para afirmar que alguém que teve a doença está totalmente protegido. Então a infecção não impediria a vacinação”, explica Cristina Bonarino, imunologista do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI Imuno).

Continua após a publicidade

Mais um ponto a se considerar é a formulação das vacinas estudadas. É possível que uma promova uma imunidade melhor do que a de uma infecção natural, enquanto a outra, não. Só pesquisas futuras responderão isso.

Quem será o público-alvo da vacina contra o coronavírus?

Uma coisa é eventualmente se beneficiar de um imunizante. Outra é integrar a turma que deve participar das primeiras fases de uma campanha de vacinação. Em teoria, quem já pegou a Covid-19 poderia ficar um pouco atrás na fila por uma vacina, até porque estudos iniciais sugerem que, pelo menos no curto prazo, a maioria dos infectados desenvolve algum grau de proteção. Em uma entrevista, Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, defendeu que programa de vacinação nacional priorizasse quem ainda não teve contato com o vírus.

Só tem um detalhe importante aqui: reconhecer todos os brasileiros infectados pelo coronavírus não é moleza, principalmente se você considerar a falta de testes no cenário nacional e a presença de pessoas com casos leves ou assintomáticos que sequer foram investigar seu estado de saúde.

Considerando isso, os especialistas ouvidos por VEJA SAÚDE acreditam que, quando uma vacina estiver disponível, é possível que o histórico de infecção não seja levado em conta.

Continua após a publicidade

Esse argumento, claro, ganharia ainda força se a vacina precisar ser reaplicada de tempos em tempos. Em outras palavras, se no futuro a Covid-19 virar uma espécie de gripe, que demanda aplicações anuais da vacina, uma infecção prévia dificilmente interferiria na determinação do público-alvo.

“Muita gente que já teve a doença será vacinada até mesmo porque, para cada caso confirmado, estimamos algo entre seis e 12 assintomáticos ou com sintomas muito leves”, diz o médico Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Mas então quais grupos seriam priorizados? Fala-se muitos dos profissionais de saúde, de professores e de pessoas que integram outras atividades essenciais. Membros dos grupos de risco para o coronavírus — a exemplo de idosos e portadores de doenças crônicas como diabetes e hipertensão — também seriam privilegiados. Em uma reportagem de VEJA, você pode ver a recomendação que especialistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, fizeram sobre o assunto.

Com tantas candidatas à vacina, é possível que cada uma acabe sendo indicada para um perfil específico. Uma para crianças, outra para os mais velhos e assim por diante. Mas essas são meras especulações.

Continua após a publicidade

“No Brasil, não foi divulgado nenhum plano de prioridades, o que deveria ser feito urgentemente”, destaca Cristina. Nos Estados Unidos, se discute vacinar, além dos grupos que mencionamos, pessoas que não podem trabalhar remotamente e se expõem mais ao Sars-CoV-2.

Tomar a vacina pode ser perigoso se já tive Covid-19?

Essa é uma pergunta respondida com mais facilidade pelos especialistas. “Nosso sistema imune está preparado para isso. Tanto que já costumamos agrupar mais de uma vacina em uma mesma ampola”, argumenta Cristina.

Fora que as formulações atualmente testadas em humanos são feitas com o novo coronavírus inativado ou com apenas partes dele, o que torna impossível sua replicação no organismo.



O lugar onde você mora conta pontos para viver mais e melhor

Não é de hoje que sabemos que o meio em que vivemos interfere com a nossa saúde. Mas temos cada vez mais evidências de que o ambiente e a comunidade onde estamos inseridos são um forte pilar para alcançarmos (ou não) uma boa longevidade.

A nova prova vem de um estudo interessante da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos. Pesquisadores analisaram índices como gênero, raça, nível educacional, vizinhança, meio ambiente e taxas de mortalidade na população acima de 75 anos desse estado americano. E concluíram que fatores como uma comunidade amigável, maior percentual de pessoas trabalhando e maior nível socioeconômico estão diretamente associados à probabilidade de se tornar um centenário.

O estudo reitera a noção de que há múltiplos fatores, muito além dos aspectos genéticos ou hereditários e dos cuidados clássicos com a saúde, que impactam em um envelhecimento saudável e sustentável. O contexto socioambiental é fundamental para que o idoso tenha mais chances de integrar o grupo dos longevos.

No Brasil, há muito a melhorar nesse sentido. Precisamos conscientizar a sociedade e as autoridades para que nosso país seja pensado e estruturado para o envelhecimento populacional. Isso passa por mudanças na esfera ambiental e social e por um trabalho contra o preconceito direcionado aos mais velhos.

Continua após a publicidade

Cidades preparadas e adaptadas para as especificidades dos idosos, que prezam pela mobilidade, autonomia e assistência à saúde, contam pontos para alguém passar dos 75 anos com qualidade de vida. É o que também comprova o trabalho de Washington, que constatou que mulheres, brancos e pessoas com maior poder aquisitivo e nível de escolaridade tendem a viver mais — e aqui vale sublinhar a desigualdade de renda e acesso à saúde gerando uma desigualdade nos níveis de longevidade.

Os pesquisadores americanos apontaram, no mapa do estado de Washington, as áreas mais propícias a esse envelhecimento ideal. Eles as chamaram de “zonas azuis”, em referência a um conceito aplicado às regiões com maiores índices de longevidade do planeta, caso de Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Nicoya (Costa Rica), Icária (Grécia) e Loma Linda (Estados Unidos).

Em Icária, por exemplo, um em cada três habitantes dessa ilha grega no Mar Egeu vive pelo menos até os 90 anos. Seus moradores têm menos casos de demência e tendem a viver uma década a mais antes de desenvolver doenças cardíacas ou câncer.

À luz da ciência e dos comportamentos observados entre quem mora nas zonas azuis, podemos perceber que poucos locais no Brasil estão preparados para dar à sua população condições propícias a uma maior expectativa e qualidade de vida. Alguns pontos são nevrálgicos aqui, como a falta de assistência à saúde e a questão da mobilidade, sobretudo nos centros urbanos.

Continua após a publicidade

Ainda não estamos preparados para a nova realidade demográfica no nosso horizonte, em que a maior parte da população será composta de idosos. Idosos que podem ser funcionais, independentes e produtivos. Pesquisas, feitas inclusive no Brasil, demonstram que, quando se sentem mais ativas, as pessoas vivem mais e melhor.

Para mudar o cenário antes que seja tarde, a solução é pensar na velhice antes de chegar aos 60 anos. Isso vale para o plano individual mas também para o coletivo. Educar para envelhecer e construir um ambiente adequado a isso deveria começar bem mais cedo.

Os estudos das zonas azuis, corroborados pelos achados de Washington em muitos aspectos, revelam os segredos para obter uma longevidade saudável. São eles:

  • Manter-se física e mentalmente ativo
  • Ter um convívio social
  • Adotar uma alimentação equilibrada
  • Costurar vínculos com a família e os amigos
  • Manejar o estresse
  • Cultivar propósitos de vida
  • Cuidar dos sentimentos e sentir-se bem

Se você reparar, são medidas simples e possíveis. E a verdade é que muitas vezes passamos a vida esperando soluções mágicas em vez de entender que o poder de envelhecer está bem em nossas mãos.